sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CANÇÃO SOBRE UM ETERNO MOTIVO

ao MANUEL MENDES

Sentado à minha varanda,
Contemplo a noite que desce
E a rosa
Que puseste no meu peito.

E, largo tempo,
Ficando silencioso,
Oiço uma voz que me fala...

-- Que voz é esta,
Tão incisiva, tão pura,
Que me pede que acredite
E tenha fé no destino?

Inclino a fronte, -- medito
No altíssimo desejo 
Que anda comigo
E sobe a cada momento!

Nas ramas do arvoredo,
O vento,
Passando, diz qualquer coisa.

A sombra cai,
De repente, volumosa.

Mal distingo as minhas mãos.

E ao pé de mim
Tomba o corpo
Fino e frágil dessa rosa...

          Londres,
          Março 1927


António Botto

AS MÃOS

vivia tão só
que se consolava
esfregando longa longamente as mãos
          uma na outra
como se fossem dois amantes
          se consolando

Miguel Barbosa

PERSONAGEM E AVE NOS JARDINS DE SERRALVES

-- Senhora professora
já viu acolá um pato preto
e branco?
-- Já vi, sim, filho! São
como as pessoas que também podem
ser pretas e
brancas.
-- Mas eu nunca vi nenhuma
pessoa preta e
branca!
-- Não te estou a perceber, filho!

Meu belo navio negro
ave da minha memória
canção dolente canção.

João Miguel Fernandes Jorge

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

CARTA A MARIANA

Só existes no prenúncio do teu nome
e na pulsão
crescente
da mãe
que há muito
te deseja
e quer
vir a ajuntar
à corola acetinada das boninas
a energia genética da espiga
e ao sabor agridoce da amora silvestre
o nome de um pai
que se reveja por igual no vosso olhar
gira as valências de um metal nobre
o bouquet subtil de vinho generoso
o timbre inebriante de uma voz

mariana
olhos verdes ou azuis
quais os meus
do colo da tua mãe
dá-lhe beijos
muitos beijos
por ti e por mim também
(se tu me chegares a ler
se tu vieres a nascer)

de longe acenar-te-ei
no papel vestibular
do pai que te acontecer

Rui Ferreira Bastos

PÁSSARO-LYRA

II

Abri o Azul e vi dois amantes de musgo abraçados. Esculpiam taças de leite coagulado por onde bebiam perfume

A minha insónia despe-se no meio do quarto e nua, friorenta, dança devagar o tango da luz

Lembro-me do cacto e da fonte. Da maneira como estas duas palavras -- uma no deserto, outra próximo de casa -- eram escritas: no caderno de marfim com um golpe de rins de caneta de tinta eterna

Pássaro-Lyra, Pássaro-Lyra, Pássaro-Lyra, Deserto Grande do Cacto, Água Grande da Fonte, Queda de Vinho na Escadaria, Princesa Blindada de Brandura, Flor-Floresta, Nave, País das Áleas, ó imagem entre todas querida!

Debaixo das tuas asas ao calor do sangue
aqueço o poema antes de o comer
pão de limo olhos de mel
até de manhã meu alimento

António Barahona

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O MESTRE-ESCOLA

Régio aos pontapés no jardim de Portalegre.

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois olhos por onde
O senhor olha infinitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio

Ruy Belo

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

PERFUMES

1

cheiros cheios
de desejo
perfuram 
veios

Frederico Barbosa

ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem do passado nem do futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.


Álvaro de Campos

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

COMO PODERÁS ENTENDER?

lembro-me sobretudo desses dias.

depois do sol tu vinhas.

eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas que te
dera o último amante.

o john lennon gritava
                        give me some truth
                                                give me some truth
e tu rias
                        rias como em noites de festas pagãs.

hoje
sentado neste bar quinhentista e fluvial de um país sonâmbulo
a máquina de discos repetindo êxitos da década 60
os pequenos barcos do rio dirigem-se para oeste
enquanto os marinheiros do passado há muitas horas bebem aguardente.
TU

perdida nas vertiginosas danças bárbaras como antigamente
como poderás entender esses lugares de paixão
onde me sento e bebo
ouvindo as histórias da época prodigiosa?

José Agostinho Baptista 

MEDITAÇÃO 6.

Naum 2.4. Tinge-se de rubro o escudo dos seus valentes, seus guerreiros vestem-se de escarlate; o aço dos carros preparados parece fogo, e os cavalos empinam-se. O mercador e os sonhos

Mais correcto seria dizer pesadelos.
Todavia, ao despertar de madrugada,
outros ruídos emergem distantes: as
pancadas ritmadas de um velho relógio

de sala, o restolhar de pássaros numa
água-furtada, a sirene de uma
ambulância, ou um cão ladrando muito,
muito longe, ou vento agitando os

plátanos, ou vozes de crianças... ainda
vozes de crianças. Um insecto imenso
baila no cortinado em fusão com o

fumo, uma breve encenação da luz.
O fumo anula o revérbero mas
aquelas vozes soam mais perto do sangue.

Mário Avelar

RE--

Re--
começo a caminhar em atitude
predestinada como convém a quem
sabe que não sabe nada e ilude
a ignorância com poemas

António Barahona

domingo, 26 de dezembro de 2010

FOZ DO ARELHO OU PRIMEIRO POEMA DO PESCADOR

Este é apenas um pequeno lugar do mundo
um pequeno lugar onde à noite cintilam luzes
são os barcos que deitam redes junto à costa
ou talvez os pescadores de robalos com suas lanternas
suas pontas de cigarro e suas amostras fluorescentes
talvez o Farol de Peniche com seu código de sinais
ou a estrela cadente que deixa um rastro
e nada mais.

Um pequeno lugar onde Camilo Pessanha voltava sempre
talvez pelo sol e as espadas frias
talvez pelas orquestras e os vendavais
ou apenas os restos sobre a praia
«pedrinhas conchas pedacinhos d'osso»
e nada mais.

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjunções astrais
um pequeno lugar do mundo
onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.

Foz do Arelho, 8.8.96

Manuel Alegre

AVISOS

Teria amado o vento e a fala dos bosques,
as imagens da noite, os pequenos avisos
do coração. Iria regressar
por outros olhos às cores do inverno.

Fernando Pinto do Amaral

sábado, 25 de dezembro de 2010

QUALQUER MÚSICA

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música -- guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não a vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um Ramo de Rosas

título: Um Ramo de Rosas
subtítulo: Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira
antologiador: José da Cruz Santos (1936)
autores: Alfredo Margarido, A. C. Swinburne, Afonso Duarte, Afonso Lopes Vieira, Alberto Osório de Castro, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Angelus Silesius, António Fogaça, Antonio Machado, António de Sousa, Camilo Pessanha, Christina Rossetti, Eugénio de Andrade, Eugénio de Castro, Fausto Guedes Teixeira, Federico García Lorca, Florbela Espanca, Friedrich Gottlieb Klopstock, Gustavo Adolfo Becquer, Hölderlin, J. W. Goethe, José Bento, José Saramago, Juan Ramón Jiménez, Nuno Júdice, Omar Khayam, Paul Celan, Pedro Juan Vignale, Ricardo Reis (Fernando Pessoa), Rainer Maria Rilke, Robert Burns, Robert Louis Stevenson, Ronsard, Ruy Cinatti, Safo, Sebastião da Gama, Shakespeare, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vasco Graça Moura, W. B. Yeats
colecção: «Bilbioteca de Poesia JCS»
edição: Modo de Ler
local: Porto
ano: 2010
págs.: 56
dimensões: 23x13,9x0,5 cm. (brochado)
impressão: Rainho & Neves, Santa Maria da Feira
direcção gráfica: Armando Alves
obs.: pintura de Evelyn de Morgan em extratexto

DESAMPARO

Não posso olhar de frente as torres deste castelo
habitado pelas trevas.
Quando os lobos uivam e aberta já está a lua,
as flores amargas dos teus olhos
desfazem-se aos meus pés.
E o pó, as cinzas, os restos de tudo o que
respirava,
amontoam-se à beira deste mar.

José Agostinho Baptista

PROMENADE -- LUGAR CHEIO DE INSCRIÇÕES (PAUL KLEE)

Às vezes sento-me na
sala a ouvir Coltrane,
pursuance... as melodias

agitam o teu olhar,
afagam bem lá no fundo
as águas azuis tépidas

da lagoa. Nesse instante,
a natureza parece
ocultar uma ausência

de piedade, parece
dizer: é tão simples, tão
natural. Deixa fluir,

como o sangue, ou como
um corpo sensual, vivo,
quente... que, indiferente,

segue por entre a tribo
e, ainda quente, nela
se dissolve. Haja Deus!

Mário Avelar

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

CANÇÃO SEGUNDA

Canto de pé no meio do país amado.
Os ventos tristes batem no meu rosto
batem no meu poema as vozes muito antigas
de não sei que desgosto sempre tão cantado
nas cantigas nocturnas do país amado.

Eu cantarei os homens assentados
nas cadeiras de chuva sobre a dor.
Dos nervos do meu canto lançarei mil dardos
eu cantarei o amor e os ombros libertados
de seus fardos. Que eu vi na dor os homens assentados.

Deixai-me ouvir os homens que falam tão baixo.
Porque não sei trair a honra de cantar deixai-me
cantar meu povo onde meu povo não cantar.
Eu quebrarei qualquer açaime e do luar farei um facho
para encher de luar os homens que se queixam baixo.

Canto de pé no meio do país amado.
Outros falem de si tecendo a frágil dor
deitados no poema entre cortinas e almofadas.
Eu cantarei o amor que sempre foi negado
às gentes ignoradas do país amado.

Manuel Alegre
Thelonious só amado pelo nome
estranho
Thelonious cagança da burguesia surda e bem cheirosa
Monk senhor dos espaços
Monk cavalheiro das dissonâncias
Thelonious Monk gigante de chapéu

José Duarte

AMÉRICA MENINA

Cheyennes shoshones e apaches
comanches e crows
na América do Norte
América dos Fortes

Blue Swing & Rock' n Roll
na América da Sorte
América do Norte

Aztecas sonoros y chicanos
yankes y gringos nas campanhas da
América Sem Mal,
América Central

Bolero Merengue y Calipso
antilhas y cubanos
na América Central
América Total

Quechuas incas e gês
tamoios tupis e goitacases
na América do Nu
América do Sul

Samba Bolero y Futebol
pau de arara y carnaval
na América Sem Sol
América Sem sal
América do Sul

Tango Tengo Tengo y gargalhada
gaúchos piratas y beduínos
na América Latina
América Menina

Bernardo de Vilhena

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

TÍLIAS

Recolheu os manuscritos.
Contou as tílias, a promessa
das cores. Emudeceu.
Nada alterou a sombra amável
nem a dignidade do olhar.
O ramo da escrita: luz surda
respiração
puro tacto.
Louvor mudo.

Fernando Jorge Fabião

A POTRANCA

Era uma vez uma potranca branca
e alazã, flor quadrúpede e equina.
Era uma vez uma potranca pampa.
Fazia voar nos cascos a campina.

De mulher tinha o cheiro das axilas,
e a cor da vulva no vigor das ancas.
A energia brotava das narinas,
do suor, dos pêlos da potranca pampa.

Era uma vez a filha do Centauro,
quase aérea, suspensa pelas crinas,
a nostalgia do primeiro páreo.

Dor de vê-la cair na pista intacta,
morta e atenta à partida sobre os quatro
galopes paralíticos nas patas.

Mauro Mota
Porque pálido e triste, meu rapaz?
     Dize: porque tão pálido?
Ou, quando um ar jocundo não lhe apraz,
     um ar triste -- é mais cálido?...
     Dize: porque tão pálido?

Porque silente e mudo, pobre jovem?
     Dize: porque silente?
Ou, quando meigas falas a não movem,
     ser mudo -- é eloquente?...
     Dize: porque silente?

Vamos, vamos!... Juízo! O teu penar
     que pode ter, que enleve?
Se por si mesma te não quer amar,
     mais fria do que a neve...
     -- o demónio que a leve!

John Suckling


(Luís Cardim)
Vem daí, deixa lá esse torpor,
Que o que agora conta e tem valor
É a amada, linda como a lua,
E teres sempre cheia a taça tua!
Não te embarace tanto nevoeiro
Que sobre jardim e vinho vai pairando.
Estares presente é o dever primeiro
E logo o jardim se irá mostrando.

Ibn Bassam

(Adalberto Alves)
Amo e odeio. Como? Perguntais por certo.
Não sei, mas sei que sinto e sei que sofro assim.

Gaio Valério Catulo

(Jorge de Sena)
Só a vida dos que nos são queridos justifica a nossa submissão voluntária.

ARTE POÉTICA

A poesia do abstracto...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor...
Uma ideia
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura;
Perde --
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia...
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

Vitorino Nemésio

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

PALAVRAS

Sentas-te ainda à mesa -- escreves
palavras tão compactas, tão opacas
como a luz que te cega. Cada dia
promete o infinito em meia dúzia
de palavras -- o amor,
a vida, o tempo, a morte, a esperança,
o coração. Repete-as,
repete-as muitas vezes em voz alta
e escuta a sua música
até não quererem dizer nada.

Fernando Pinto do Amaral

OS MEUS AMIGOS

Amigos cento e dez e talvez mais,
Eu já contei! vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer,
Se ele está cego, não nos pode ver...
Que cento e nove impávidos marotos.

Camilo Castelo Branco
     Ergue-se a ave e às vezes
é quase árvore:
luz, fixa,

     suspensa

     do teu olhar, do vento,
dos vultos que num adejo vela,
desvela de repente;

     vê moverem-se
ávidos do seu voo
o chão, casas, o bosque
onde o seu ninho a chama,

     e uma face
que vai de corpo em corpo;

     vê o pântano que sob asas
é rio fugitivo,
sulco de sua fuga imóvel.

José Bento

AULA

a luz da lua prateia a planta
um bocejo dentuço engole a noite

Charles
O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio que, deitado
Onde co o vento a água se meneia.
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:

-- Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe ao vento a voz, que ao vento deita.

Camões
Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo ainda fiquei olhando

A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,

Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então

Sumir-se em meio àquele sobressalto
Depois de muito sacudida no alto
E de muito arrastada pelo chão...

Dante Milano

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ODE

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
          Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
          Traíras-me comigo.

Ricardo Reis
Se eu podesse desamar
a que[n] me sempre desamou,
e podess' algun mal buscar
a quen me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Mais non poss' eu enganar
meu coraçon, que m' enganou,
por quanto me fez desejar
a quen me nunca desejou.
E por esto non dormio eu
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Mais rog' a Deus que desempar
a quen m' assi desamparou,
vel que podess' eu destorvar
a quen me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Vel que ousass' eu preguntar
a quen me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunc' en mi cuidou.
E por esto lazeiro eu,
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Pero da Ponte
Desprezei toda a paixão
Era bem moço eu ainda então.
O Tempo me açoitou
E só cãs e velhice me deixou.

Depois, já fora de estação,
Entreguei-me nos braços da paixão.

Ah nascera eu na decrepitude
P'ra regressar depois à juventude!

Ibn 'Ayyas al-Yaburi

(Adalberto Alves)

domingo, 19 de dezembro de 2010

FADO DO BICHINHO DA TERRA

És gesto mas não de gente
és boca mas não de beijo
quando te olho de frente
e encontro o que não vejo.

Estes lábios esta voz
esta celeste frescura
esta fome que há em nós
e dentro de nós procura

como os bichinhos da terra
as raízes da figueira
como a noite que se cerra
em torno da terra inteira.

Como a luz de lado a lado
como a espada até ao fundo
como se eu fosse culpado
da miséria que há no mundo.

António Lobo Antunes

HERBA SANTA

Associo melodias às estações,
a instantes mais ou
menos vagos na memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.

Regressara nesse tempo da pátria
dos heróis. Os dias fluiam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.

Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?

Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega.



Mário Avelar

BREVE CANÇÃO DO VENTO OESTE

Ele há-de vir o vento oeste
ele há-de vir e há-de levar
as vãs palavras que escreveste.
Ele há-de vir com seu presságio
e os címbalos que já trazem o som do inverno
ele há-de vir o vento oeste e há-de apagar
o verão que parecia ser eterno.

Ele há-de vir com seu adágio
suas orquestras em convés que vão ao fundo
ele há-de vir e há-de apagar
a escrita a jura as ilusões do mundo.

Em cada verso há um naufrágio
não sei de poema que não seja mar

Foz do Arelho, 30-8-2003

Manuel Alegre

sábado, 18 de dezembro de 2010

A UMA FONTE

Fonte pura, fonte fria...
(Onde vais, minha canção?)
Fonte pura..., assim queria
que fosse meu coração:
fluir na noite e no dia
sem se desprender do chão.

Eugénio de Andrade

NAUFRÁGIO

Erraste muito tempo sem saber
quantos anos durou dentro de ti
a primavera         Nada
nessa água te lava já o rosto
ou que deles resta submerso
nas correntes marítimas da morte
como líquido espectro ou colorida
anémona          A memória
mascara pouco a pouco essas imagens

Erraste sem saber qual a matéria
da tua vida          O fogo
acendeu hoje a casa do teu corpo
tão cedo arruinado e tu naufragas
nessa doce catástrofe
na espuma desse mar        Qual o instante
em que o verão se transforma no outono
se o arrepio da noite quando chega
parece ainda um luminoso dia?

Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Poesias Completas

autor: Alexandre O'Neill (Lisboa, 19.XII.1924 - 21.VIII.1986)
título: Poesias Completas
subtítulo: 1951 / 1981
prefácio: Clara Rocha
colecção: «Biblioteca de Autores Portugueses»
edição: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
local: Lisboa
ano: 1982
págs.: 504
dimensões: 24x15x2,7 cm. (brochado)
capa: grafismo de Armando Alves
impressão: Gráfica Maiadouro (Maia)
tiragem: 3000

ÁFRICA

V

Reflectiu o arco-íris
as suas tonalidades múltiplas
sobre as pétalas virginais;
do fundo da terra
subiu até elas o perfume quente
das essências.

E logo foi rubra e ardente
a rosa tropical,
pálida a magnólia,
solene o cravo.

Nelas buscaram cor
as mariposas
e encheram as suas taças
os besouros;
nelas o Poeta e a abelha
encontraram a mais requintada doçura.

Brancas, verdes ou amarelas,
amo-as a todas
na sua pluralidade colorida,
na sua fragilidade perfumada.

Azuis, vermelhas ou roxas,
amo-as a todas
e peço-as
para os meus mortos
passados e futuros,
mortos da terra e do mar,
da escravidão e da liberdade,
peço flores para as novas bandeiras de África
que eu vejo desabrocharem no horizonte.

Manuel Lima

ÍCARO

A minha Dor vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia
E as multidões desceram ao povoado,
Que a minha Dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cima o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

José Régio
     Uma pomba
Alanceando a luz
Isenta-se da terra;

     sem prendê-la, sustém
a sombra que despiu
e fiel voa sobre ela.

José Bento

EM TEMPO DE MISÉRIA

desço por um jardim transparente
entre lodo e hortelã

andam assistentes sociais pelo bosque
à procura de pobres
agitam contas e berlindes

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

troco à sombra do derradeiro cipreste
dois versos e um dedo
por uma noite de sono e um detonador

João Almeida

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

POEMA

Eu te amarei ainda que tu morras

em mim o teu cadáver transparente

flutuando nas barras e masmorras

em que se gruda mim, fluorescente

recordo, de instantes intangíveis

subsequentes moléstias em que urro

para ecos em corpos talvez inatingíveis

como ao ar não pode forte murro

revolver em matéria desagregada

ou dança de dados reprováveis

ama-me em mim a tatuagem

do teu destino em formas razoáveis

não formas inclementes da ramagem

verdelúcidas dos frutos acreágeis

ocre barro humano húmus e imagem

Alberto Luiz Baraúna

POEMA

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quanto mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RIMANCE (na forma da lhaneza popular)

Debaixo daquela árvore
'stá um menino a brincar,
'steja sombra esteja sol,
nunca deixa de folgar.

E a árvore foi crescendo
foi crescendo para o ar...
e o menino foi crescendo
já não sabia folgar.

Debaixo daquela árvore
com ELA está a falar.
A árvore já é grande
e o menino vai casar.

Um dia lá muito ao longe
'stava o menino a pensar,
e quedou-se mudo e triste
por já não saber folgar.

Já passaram muitos anos
por cima do seu pensar.
Debaixo daquela árvore
'stá um velhinho a chorar...

-- Porque choras tu velhinho?
o que te faz soluçar?
-- Se eu estou já tão velhinho
porque não hei-de chorar?

Quando eu era pequenino
vinha para aqui folgar,
agora que sou velhinho
venho para aqui chorar.

Uma voz se ouviu então
que vinha ao alto do ar:
-- Só és velho e vais morrer
por ter 'squecido o folgar...

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À sombra da linda árvore
uma cruz foram plantar,
com um letreiro que diz
cousas que fazem cismar:

O SABER A VIDA, MATA.
O NÃO-SABER, FAZ CRIAR.
A MORTE SÓ CRIA A VIDA
P'RA MORRER DEPOIS DE AMAR.

Alberto de Hutra
Vós mi defendestes, senhor,
que nunca vos dissesse ren
de quanto mal mi por vós ven,
mais fazede-me sabedor,
por Deus, senhor, a quen direi
quan muito mal [lev' e] levei
por vós, se non a vós, senhor?

Ou a quen direi o meu mal,
se o eu a vós non disser?
Pois calar-me non m' é mester
e dizer-vo-lo non m' er val.
E, pois tanto mal sofr' assi,
se con vosco non falar i,
por quen saberedes meu mal?

Ou a quen direi o pesar
que mi vós fazedes sofrer,
se o a vós non for dizer,
que podedes conselh' i dar?
E, por en, se Deus vos perdon,
coita d'este meu coraçon,
a quen direi o meu pesar?

D. Dinis

PROGRAMA

Para Miguel Torga

Seja a poesia
O que nós quisermos que seja...
...Não venha ao sabor do dia
Porque os dias são instantes no caminho

--: Não cante a voz
Mais alto que nós!

António Neto

SONETO

Canta. Busca na vida o que é perfeito.
Olha o sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia,
Tal uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faze o teu leito.
Respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faze de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do jardim,
Todos os frutos do pomar e enfim
Colhe todos os sonhos do universo.

Procura eternizar cada momento,
Fecha os olhos a todo o sofrimento
E terás feito a carne do teu verso.

Fernanda de Castro

DENTRO DAS IMAGENS

Os poemas têm veneno na boca.

Na estrada da minha vida
plantei a árvore
sem saber quem era.

Em que parte do planeta
há mais ódio? A matéria
erosiva transforma o corpo
e não há regresso. Não
restará um monte de estrume.

Em todo o lado
parece que o mundo em desordem
pouco a pouco enlouqueceu
e os homens atam a corda
à espera que aconteça.

São infelizes
mas não o suficiente.
Não sabem dizer
por que se esquecem de amar.

Isabel de Sá

RORY GALLAGHER: FOLLOW ME

A voz
grave, quase gutural,
amacia cada riff
dedilhado com nervo,
como se a vida se esvaísse
das cordas daquela fender.

Puro malte irlandês.

NOSSA SENHORA

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira
Arrancada a um Calvário de capela.

Põe as mãos com fervor e angústia. O manto
Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe das Dores, seus olhos enevoados
Olham, chorosos, fixos, muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe: -- «A sua benção, Mãe!»

Sim, fazemo-nos boa companhia,
E não me assusta a sua dor: quase me apraz.
O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.

-- «Por que choras, Mulher?» -- docemente a repreendo.
Mas à minh'alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo:
-- «Não é por Ele...»
                 -- «Eu sei! Teus filhos somos nós».

José Régio

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CASIDA DO FALCÃO E DA LUA (fragmento)

Noite na cúpula do céu.
Um falcão voando sob a lua
traça o veleiro de sombra nas areias.
A alcova diz ao alaúde das seis cordas
que vença a mágoa do vento apaziguado.
Morre a volúpia das rugas?
Tâmaras e sândalo, evanescentes dédalos.
Almíscar e carícias, venenos de um arfar.

E o falcão busca ainda voando sob a lua
a miragem de um guante para poder pousar.

Adalberto Alves

...DE PASSAREM AVES

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.

Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando,
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

Jorge de Sena

LIVROS DE CONTOS

Alma emputecida
Sombra esquisita
Se esquiva
Entre
Laços de Família

Waly Sailormoon

JORGE

Constantemente vejo o filho amado
Na minha escuridão, onde fulgura
A extática pupila da loucura,
Sinistra luz dum cérebro queimado.

Nas rugas de seu rosto macerado
Transpira a cruciantíssima tortura
Que escurentou na pobre alma tão pura
Talento, aspirações... tudo apagado!

Meu triste filho, passas vagabundo
Por sobre um grande mar calmo, profundo,
Sem bússola, sem norte e sem farol!

Nem gosto nem paixão te altera a vida!
Eu choro sem remédio a luz perdida...
Bem mais feliz és tu, que vês o sol.

Camilo Castelo Branco

ÉCLOGAS PEQUENAS EM QUE FALA UM SÓ PASTOR

I

No Sertão das Vacarias o leite e o país
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.

E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,

esforço, envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,

hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela inda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que

todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,

porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?

Dantas Motta

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A LUZ

A luz entrava na palavra e revelava
um outro patamar da imagem.
Era uma terra desconhecida
uma gramática nova.
A luz entrava e subvertia tudo
advérbios verbos preposições.
A luz sem adjectivos
quase cegueira de tão branca.
Então pensei: eis o lugar.
E todas as cigarras cantavam
nas sílabas morenas de Florbela Espanca.

Manuel Alegre

domingo, 12 de dezembro de 2010

COMO OS OUTROS

Como os outros discípulo da noite
frente ao seu quadro negro
que é exterior à música
dispo o reflexo Sou um
e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.

Sebastião Alba

RUA

Mil coisas me contavam,
mil números,
mil coisas decifradas
e mais uma.

Sempre de perfil
no umbral do mundo,
a porta não entrando
das certezas,

às doutrinas fugia
e suas poses.
E em meu ombro adeus

cerrou-se a porta:
«Ó homem de esguelha
como quem ouve vozes!»

Pedro Alvim

CANÇÃO DE EMBALAR

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme que inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

José Afonso

sábado, 11 de dezembro de 2010

QUADRAS DA MINHA VIDA

Os ecos nos meus sentidos
Dos meus afectos doentes
São mais longos, mais compridos
Do que rastos de serpentes.

Nasci profundo e pegado
A turbilhões de aflição:
Na cara trago estampado
O meu perfil de obsessão.

Não creio que possa amar
Nem neste mundo ter jeito
De me encostar a outro leito
Sem desatar a chorar.

Enterro os dias e os ais,
Sou uma pilheira de mortos,
Não tenho espaço pra mais!
Que se comam uns aos outros...

Mário Saa

INTENSO

Mais que os lábios
Beijam meus olhos
Quando passeiam por ti
E te acrescentam
Com a beleza dos astros

Como brasa sob cinza
O desejo queima
À revelia do olhar
E acorda-me o corpo
Para um destino
De fogo ou de mar

E sou chama
Luz
Incenso
Ao toque leve
Dos teus dedos
Nas alegrias e nos medos
No beijo breve
E quente
No teu raspar de asa
No teu amar urgente

Edgardo Xavier

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Aproximações a Eugénio de Andrade

título: Aproximações a Eugénio de Andrade
antologiador: José da Cruz Santos (1936)
autores: Eugénio de Andrade, A. M. Pires Cabral, Alberto Pimenta, Ángel Crespo, António Lobo Antunes, António Osório, António Ramos Rosa, António Salvado, Armando Silva Carvalho, Bruno Tolentino, Carlo Vittorio Cattaneo, Egito Gonçalves, Fernando Pinto do Amaral, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Inês Lourenço, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Jorge de Sena, Jorge Sousa Braga, José Bento, José Fernandes Fafe, José Tolentino Mendonça, Luís Filipe Castro Mendes, Manuel Alegre, Manuel António Pina, Mário Cláudio, Nuno Júdice, Pedro Homem de Melo, Rosa Alice Branco, Ruy Cinatti, Teresa Balté, Vasco Graça Moura, Vergílio Alberto Vieira, Wolfgang Bächler.
edição: 2.ª
colecção: «Pequeno Formato» #7
editora: Edições Asa
local: Porto
ano: 2001
págs.: 54
dimensões: 23x13,3x0,7 cm. (brochado)
direcção gráfica: Armando Alves
extratexto: retrato de Eugénio de Andrade por Jorge Pinheiro

COSMORAMA

Reina a lua nos pauis
onde o céu se vem mirar...
E eu tenho os olhos azuis
de sonhar a olhar o mar!...

Vai um navio a subir
entre as ondas... Ao chegar
lá ao céu, hei-de sorrir
alegrias de emigrar!...

Navios do fumo alvo
que faz as nuvens do céu,
dos vossos naufrágios salvo
sempre alguém que lá morreu!

Mas no céu, subitamente
naufragais, ides viajar
quantos mares fiquem na frente:
-- caminho de regressar...

Branquinho da Fonseca
Eis-nos aqui no caminho
traçado por nossa mão.
Cada braço traz um punho
e cada punho um punhal.

Bandoleiros na vida,
vida errante era o destino!
Nas costas nasceram traços
da vida dura, sem pão.

Rugas dos covais da vida
cemitérios de ilusão!...
Mortos, mortos mas com vida
quase à beira do chão.

Quase à beira do chão
rastejantes, vermes, podres!...
Pobre miséria do mundo
só o dinheiro é patrão.

Só o dinheiro é senhor
dos vermes sujos do chão

Cada verme traz um punho
Com uma faca na mão.

Alexandre Dáskalos

LEITURA

Havia luz em uns instantes surgidos
Na minha vida,
Que a mesma vida apagava;
E a pobre realidade era uma cinza...
...Já nada me recordava
Se, de entre ela uma faulha
Não me queimasse os sentidos.

O fogo das queimaduras
É dor que nunca me passa!
E é esta que me ressurge
Um pouco dessa luz-alma
De tantos momentos idos...

A inquieta luz sempre de agora
Que ao mundo nada desvenda,
A mim diz certa verdade,
A chã naturalidade
Nas coisas vãs da legenda.

Talvez ninguém me acredite,
E se ria,
Quando grave eu me recite;
Mas recitar-me, cantar,
Mesmo cansada a memória,
Teria de acontecer:
É comigo,
Bem viva enquanto eu viver
A minha inútil história...

Edmundo de Bettencourt
o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do êrro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o côrrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

Herberto Helder

SANGUE

Versos
Escrevem-se
Depois de ter sofrido.
O coração
Dita-os apressadamente.
E a mão tremente
Quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.

Saul Dias

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O casamento de almas de eleição,
nada o embarga. Nunca foi amor
o que vacila posto em provação,
ou se bandeia ao próprio destrutor.

Ah, não! O amor é um sinal constante,
encara as tempestades sem tremer:
a Tramontana desta nau errante,
cuja «altura» nos salva -- ou faz perder.

Não teme, ó Tempo, a tua foice adunca:
róseas faces e lábios, esses sim;
não muda em horas, dias, meses, -- nunca! --
teima e perdura até ao fim do fim...

E se por falso rumo agora vou,
-- jamais poetei! jamais alguém amou!

Shakespeare

(Luís Cardim)

ASAS

Eu tenho asas!
Piso o chão como pisa toda a gente
mas tenho asas
de impalpável tecido transparente,
feitas de pó de estrelas e de flores.
Asas que ninguém vê, que ninguém sente,
asas de todas as cores.
Pequenas asas brancas que me afastam
das coisas triviais
e as tornam leves, fluidas, irreais
-- pólen, nuvem, luar, constelações,
irisados cristais.
Asa branca minha alma a palpitar,
bater de asas o doce ciciar
de pálpebras e cílios.
Ó minhas asas brancas de cetim!
Revoadas de pássaros meus sonhos,
Meus desejos sem fim!

Fernanda de Castro

MANÉ FÚ

Mané Fú

Louco que povoou a minha infância
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas

Mané Fú     Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque às sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos

Mané Fú      Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes      nunca divulgadas

Virgílio Pires
jazz a única Música do século XX
original
as outras a ele foram beber, sorver,
umas para vender
outras à socapa
fusões ingratas

PENA DE MORTE

Eram bastante bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois veio o amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.

Leila Miccolis

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ela é conforme à noite, e sob as dunas, perdidamente inerte como um deus, espera que a lua calva ainda uma vez possa, à alba, essa pedra cingir.

Vergílio Alberto Vieira

PARADA DOS ÂNGULOS AGUDOS

A Luiz de Montemor

Quando, altas horas, eu regresso ao leito
Cheio de tédio, insuportável, farto,
A estranha geometria do meu quarto
Põe ângulos agudos no meu peito...

Quero dormir -- não posso! Que profundo
Horror a minha vida miseranda!
E, aflito, do meu púlpito -- a varanda,
Prego a ilusão fantástica do Mundo!

E o luar, o luar magnífico e sereno,
Só ele compreende a minha dor
Porque me beija o rosto nazareno;

E que prazer -- meu Deus! -- eu sinto então,
Depois de ter pregado a Paz e o Amor,
Dormir, sonhar, por ti, meu coração!

Duarte de Viveiros
A uma palavra segue-se outra.
Passos na manhã,
nenúfares no teu lago preferido.

Finge que estás aqui onde ninguém entra,
e o Sol espera o fim
do sonho interrompido.

João Villalobos

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NOITES GÉLIDAS

MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de Inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

Cesário Verde

VINDE, Ó POBRES

Vinde os possuidores da pobreza
Os que não têm nome no século.
Vinde os homens da contemplação.
Vinde os que têm a língua mudada.
Vinde os forasteiros e vagabundos.
Vinde os homens descalços e os que têm
Os olhos cheios de espantos.
Jesus Cristo -- Rei dos Reis
Os vossos pés quer lavar,
O filho do marceneiro
Não vos pode abandonar.

Jorge de Lima

BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
       Que é tão bela,
       Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
       Colhe a vela,
       Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
       Mas cautela,
       Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
       Só de vê-la,
       Oh pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
       Foge dela
       Oh pescador!

Almeida Garrett

O POEMA

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Mário Quintana

AUTO-CRÍTICA

Senhor! nunca me vi nem conheci
Dentro do negro abismo onde se esconde
O meu segredo humano, nem sei onde
Começa e acaba o que provém de ti!

Sei que errei o caminho e me perdi!
Agora, embora chame e grite e sonde,
No meu longo deserto, só responde
Ao longe, a voz do mar que nunca vi.

Em vão chamo por mim, em vão procuro
A luz que me pertence e que cintila
No fundo inquieto deste abismo escuro;

-- Fio de água sumido nas areias, --
Vejo estátuas dramáticas de argila
Com dedadas fatais de mão alheias!

Campos de Figueiredo

PORTO

A cidade equestre
No rio mergulha
Seus cascos de granito
E sobe
A galope
Encosta arriba

Num salto a prumo
(Lá onde o casario morre)
Upa!
É uma torre

Torre de pedras e nuvem
De pássaros de fogo
De corpo de mulher
Torre de tudo e de quanto
O sonho a palavra o canto
Pode e quer.

Luís Veiga Leitão

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

IDÍLIO MORTO

Que fará a esta hora a minha andina e meiga Rita
de junco e capulim;
agora que me asfixia Bizâncio e que dormita
o sangue, como débil conhaque, dentro em mim.

Onde estarão suas mãos que em posição contrita
engomavam nas tardes uma brancura ainda por ver;
agora, nesta chuva que me evita
o gosto de viver.

Que será de sua saia de flanela; de seus
trabalhos; seu andar;
do seu sabor a canas de maio do lugar.

Há-de estar à sua porta, olhando o céu nublado,
e a tremer dirá: «Oh que frio... meu Deus!»
E um pássaro selvagem chorará no telhado.

Cesar Vallejo

(José Bento)
A penúria da língua é a sua força.
Reconhecendo nela a indigência
mais o apuro se empolga
e a submissão empolga a subtileza
do espírito, dado a obra
e a mais nada que não seja ela.
De aí que se desenvolva
uma abertura hiante de surpresa
que pede língua cada vez mais nova
e de mais adequada obediência.
Ou, se quiserem, língua peremptória.
Porque, vinda do fundo da pobreza,
entrega apenas quanto falta. E torna
a sua falta uma abertura imensa,
indigitando o extremamente fora,
cuja ausência feliz se nos entrega.

Fernando Echevarría

domingo, 5 de dezembro de 2010

OCEÂNIAS

Ondas do mar me deitaram
sobre o calor das areias
que ao meu corpo se moldaram
pra aquecer as minhas veias.

E aquele corpo de escrava
dando-me força a vencia
pelo gozo que me dava
para o gozo que sofria.

A noite vinha a descer
e subia a maré-cheia...
Eu já tinha o meu poder:
fugi à praia, deixei-a.

Foi assim que regressei
das conquistas do mar bravo,
e ergui palácios de rei
sobre refúgios de escravo.

Branquinho da Fonseca
A morte, dona de quem sente,
Está entre ti e tudo quanto almejas
Não a esqueças da alva ao sol poente
Para que sempre na memória a vejas.

Seja ela bálsamo para o teu olhar
Nos momentos em que tu medites,
Quando a minha alma de ti se afastar
E no derradeiro estertor te agites.

Ibn Al-A'lam as-Santamari

(Adalberto Alves)

SANTO E SENHA

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

Miguel Torga

sábado, 4 de dezembro de 2010

THIS BREAD I BREAK

This bread I break was once the oat,
This wine upon a foreign tree
Plunged in its fruit;
Man in the day or wind at night
Laid the crops low, broke the grape's joy.

Once in this wine the summer blood
Knocked in the flesh that decked the vine,
Once in this bread
The oat was merry in the wind;
Man broke the sun, pulled the wind down.

This flesh you break, this blood you let
Make desolation in the vein,
Were oat and grape
Born of the sensual root and sap;
My wine you drink, my bread you snap.

Dylan Thomas

A FLOR DA TUA GRINALDA

Um dia
Não sei
Por que merecimento,
Graças a que virtude,
-- Ó Beleza, --
Eu, flor do bosque,
Figurei na grinalda que te rodeia o colo.
     -- Então,
Ao romper da manhã,
Os primeiros clarões da aurora
Pareceram mais belos
À terra que descerrava os olhos...
..............................................................
     Agora
Que desfalece o dia
Na luz que morre e nos cantos das aves,
Se, na sua extrema lassitude,
Batida pela brisa do crepúsculo,
     A flor tombar por terra,
Que ela siga os teus passos
     Para sempre, -- ó Beleza! --
Sem que a macule nunca
     A poeira do caminho!

Rabindranath Tagore

(Augusto Casimiro)

Obra Poética I

autor: Artur do Cruzeiro Seixas
título: Obra Poética -- vol. I
organização e prefácio: Isabel Meyrelles
colecção: «Biblioteca "Eu Falo em Chamas"» #1
edição: Edições Quasi e Fundação Cupertino de Miranda / Centro de Estudos do Surrealismo
local: Vila Nova de Famalicão
ano: 2002
págs.: 240
dimensões: 22,5x15,1x2,2 cm. (brochado)
impressão: Papelmunde, Vila Nova de Famalicão
capa: Mimesis, Multimédia, sobre desenho de Cruzeiro Seixas

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

SUSPEITAS

Quando eu nasci houve um erro,
o Calendário estava errado:
-- Os dias desse ano tinham acabado e os do próximo
não tinham ainda começado!
Nascia assim fora de tempo,
entre dois blocos do Tempo.

Então, como vento entre frinchas,
mal chegava   quis partir eu logo -- dizendo-me --:
"Nascerei mais tarde. Quando houver calendário sem
"                               sobressaltos, nem bruscos saltos
"de um outubro, súbito,
"para o abismo-oculto das Idades...

Insecto algures suspeito de mim próprio,
arranjei lento coragem taciturnamente:
-- E nasci, fui nascendo:
por ocultos gestos metamorfósicos,
segundo rituais atávicos   de silêncio e do sangue.

J. O. Travanca-Rêgo

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

MORTE: SUAS CONTAS DE DIVIDIR

O horizonte divide-nos nas suas mentiras:
ou é uma árvore ou um rio e todos os anzóis que engoliu
ou uma mandíbula de peixe ou o sol: o velho incendiário ambulante.
A morte essa é um maravilhoso número indivisível.

Alexandre Pinheiro Torres

A NOSSA SENHORA

Se a febre atraiçoada enfim declina,
E se se esconde a aberta sepultura,
Ao vosso rogo o devo, ó Virgem pura,
Por quem me quis livrar a Mão Divina:

Sem Vós debalde a experta medicina
Traça e aparelha a desejada cura;
Sem Vós o índio adusto em vão procura
A amarga casca da saudável quina.

Quando em luta co'a morte me contemplo,
Sem haver já no mundo quem me valha,
Do vosso grão poder, (que grande exemplo!)

Vencestes; e, em memória da batalha,
Penduro nas paredes deste templo,
Rasgando, um novo Lázaro, a mortalha.

Nicolau Tolentino

BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

OCORRÊNCIA

decidiu interromper sua ideia de ser o Duque de Wellington,
flutuando no ar. a perícia descobriu que em seus bolsos
somente havia cartas de amor, apesar das várias cicatrizes no
abdome e algumas manchas no corpo,
lembrando ligeiramente o mapa da Índia.

Adão Ventura

CANTO DE MAIO

Já vem Maio florir sobre as campinas!...
Cantam, de amor, mil vozes cristalinas...
      Por que hei-de sofrer de amor?

O mundo reverdece de alegria;
O sangue, em nós, é sonho e melodia...
      Por que hei-de sofrer de amor?

Sob este céu, em que a alegria exulta,
Por que há, em mim, uma ansiedade oculta?
      Por que hei-de sofrer de amor?

O mundo é seiva ardente e fervorosa...
Por que persiste, em mim, a força ansiosa?
      Por que hei-de sofrer de amor?

É passageira a luz da primavera...
E o sonho da minha alma, esta quimera,
      Por que hei-de sofrer de amor

É ter no mundo o amor que nunca passa.
É para dar aos céus a humana graça,
      Que eu hei-de sofrer de amor.

João de Castro Osório

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Nasci naquela terra distante
num dia de batuque.

daí esta pressa de viver!

Ombros balançando
lábios sangrando de prazer
eles dançavam
dançavam...

Daí este olhar pró sofrer!

Depois o descanso.
Olhos longe sem se saber porquê

Assim esta vontade de viver!

Francisco José Tenreiro
Para guardar meu rebanho
cão e flauta pouco mais
num mundo deste tamanho
só coisas essenciais.

José Correia Tavares

MADAME BUTTERFLY, VELHA

Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.

Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.

E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.

Pedro Tamen

terça-feira, 30 de novembro de 2010

VIRGEM

Sobe, suave, solene coluna de fumo branco...

És vulto que se evapora,
És toda a alma que chora
Sem lágrimas, sem motivo,
Sem uma queixa
Aparente.
           Vivo!
           Em mim
           Existe
           Sòmente
           Uma tristeza
           Sem fim
           Que nem me deixa
           Ser triste
           Aos olhos da outra gente.

           Imagem
           Sempre em viagem,
           Minha impalpável riqueza.

Sobe, suave, solene coluna de fumo branco...

Lisboa,
1927


Gil-Vaz

ASTROLÁBIO

Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6,35
-- pediste uma água mineral, um café
e uma sandes de ovo (em que não tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 04.55 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.

Diogo Vaz Pinto

RECREIO

Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
As crianças confraternizam com a alegria das aves...

A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
-- Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
A vida que vai chegando despercebida e breve...

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes...

Alberto de Serpa
Fica o passar do tempo na paisagem
-- fica numa folha que passa
e seca
tomba...

Fica numa sombra
a completar a imagem
da eternidade.

António de Navarro

JANGADA

Vai o marinheiro pôr no mar
a mala grande de herói
que embarca todos os dias
e segue na derrota sem velas
nem casa de navegação.

Vai fechando os olhos aos anos desertos
esmigalhando nas mãos
as horas que lhe envelhecem a vigília
e como criança no encantamento de uma fantasia
dá a direcção de mar largo
ao pauzinho que põe na água.

Olhos postos na hora grande
duma partida que inventa mastros cabos,
companheiros de viagem de várias falas,
qual virgem que espera até às rugas
o momento do amor...
ou figura antiga na contemplação mística
dum sonho sonhado
(o mar porta aberta dum fruto quase proibido)
inclina-se com a brisa e sonha
que não está sonhando!

Teobaldo Virgínio

FLASH DE JOHN COLTRANE

para Rão Kyao

a ouvir Stardust de John Coltrane
o meu destino é este debruçado na
pirâmide com o coração aberto em quatro
de maneira esfíngica no deserto sempre
que outro lugar não há à mercê de ser
livre dono da deriva do barco

7-10-77

António Barahona

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O GATO

O meu não come ratos, não gosta. Se apanha algum, é para brincar com ele.
Quando brincou tudo, poupa-lhe a vida, e vai sonhar noutra parte, o inocente,
          [sentado no caracol do seu rabo, a cabeça fechada como um punho.
Mas, por causa das garras, o rato morreu.

Jules Renard 

(Jorge de Sena)

O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
-- Duas, de lado a lado --,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa

ALARIDO

E veio a noite do alarido.

A noite clara, a noite fria,
com perfurados calafrios.

A noite com punhais erguidos
e olhos devassando perigos.

A noite cava, com ladridos
de cães atiçados. E espias.

A noite com tremores lívidos
e com membros estarrecidos
diante das ovelhas suicidas.

A noite de mármore e níquel
despedaçando-se em tinidos
no cristal violento das criptas.

Montanhas de ferro em vigília,
longas árvores comprimidas
e astros de fogo em carne viva

pasmaram de tanto alarido.

Henriqueta Lisboa

BUGANVÍLIA

Branca a buganvília explode
no odiado muro em frente

à volta a vida berra crente
e o negro sangue estanca

vermelha a buganvília
rompe o muro da frente

José Luandino Vieira

MAR INCERTO

Que triste o som acorda à minha voz!
Como é pálida a luz do meu espelho
E a desse rio azul que não tem foz:
O tempo, em que me vou fazendo velho...

Dias loucos da infância, onde estais vós?
E a alegria -- esse cântico vermelho
Do sangue virgem que não tem avós?
Como se chama a sombra em que ajoelho?

Arfa, cansado, no meu peito um mar:
O mar remoto da remota Ilha
Onde as sereias cantam ao luar...

À esteira dos navios, as gaivotas
Gritam no céu, e o céu, lânguido, brilha
Sem ecos de vitórias ou derrotas.

António de Sousa

domingo, 28 de novembro de 2010

No silêncio das tapeçarias
há a memória
das terríveis batalhas
do imaginário.
Mas são ternas
as cartas que trocam entre si
os seus heróis.
É certo que as árvores cantam por toda a parte
a sua música
e que há enfim leões e elefantes
no centro de Londres ou de New York.
Agora a tua face está cravejada de ponteiros
e a manhã que acaba de nascer
regressa ao ventre materno.
Lisboa cobre-se de gaivotas.
Um gravíssimo excesso de grandeza
anuncia o Nada.

Áfricas 69

Artur do Cruzeiro Seixas

ALEGRIA DE VIVER

Quando eu era menina,
Já minha mãe me dizia:
-- Mesmo que sejas velhinha,
Não percas essa alegria!

Com as agruras da vida,
Não há que desanimar,
A vida é melhor vivida
Se for levada a cantar.

No rosto duma criança,
Na flor a desabrochar,
Nós vimos sempre a esperança
Que nos ajuda a lutar.

Toda a minha poesia
É feita com simplicidade
Não tem hipocrisia
Tem apenas amizade.

Agradeço ao Senhor
Os dons que me concedeu.
Não tenho grande valor
Mas o pensamento é meu.

                         8-10-1987


Isolina Alves Santos

sábado, 27 de novembro de 2010

THE SNOWMAN

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
On the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Wich is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

Wallace Stevens

SALÃO DE BELEZA (2ª Impressão)

Dorida visão esta pobre velha
à saída do salão de beleza.
Apesar dos muitos e pesados passos
que deixou na terra, do lastro insuportável
de seus anos movediços,
ainda encontra forças para arrastar a alma
até ao reverso de um espelho e desenhar,
de memória, o sanguíneo traço dos lábios,
armar o cabelo para mais uma ilusão.
Admirável a tenacidade das ervas
que à enxurrada opõem a verdura de um grito
e resistem à lição de Marco Aurélio,
ao prolongado cerco da realidade.
Admiráveis porque vestem de gala
para mais uma dança, já solitária,
num baile de fantasmas, todo mental,
sem dar crédito à melancolia nem ouvidos
ao tirânico juízo da crua, da falsa
da estúpida carreta fúnebre.

José Miguel Silva

DÍSTICO

O viver que grita muito não diz nada.
A morte ao dizer tudo é bem calada.

8/7/38


Jorge de Sena

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Eros de Passagem

título: Eros de Passagem
subtítulo: Poesia Erótica Contemporânea
antologiador: Eugénio de Andrade
autores: Camilo Pessanha, António Patrício, Afonso Duarte, Fernando Pessoa, Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, António Botto, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt, José Régio, Vitorino Nemésio, José Gomes Ferreira, Pedro Homem de Melo, Miguel Torga, Carlos Queirós, Adolfo Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Raul de Carvalho, Carlos de Oliveira, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Alberto de Lacerda, Fernando Echevarría, Ana Hatherly, Herberto Helder, José Bento, António Osório, Pedro Tamen, Fernando Assis Pacheco, Maria Teresa Horta, Armando Silva Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, Gastão Cruz, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães.
desenhos: José Rodrigues
colecção: «Os Olhos e a Memória» #20
direcção literária: Egito Gonçalves
direcção gráfica: Armando Alves
edição: Limiar
local: omisso
ano: 1982
págs.: 72
dimensões: 20,5x12,5x0,6 cm. (brochado)
impressão: COOPAG, Porto
ob.: nas badanas, textos de Nuno Teixeira Neves e Joaquim Manuel Magalhães; foto de Eugénio de Andrade na contracapa, autor não-identificado

RUA ADAMCZEWSKI

Na distante memória, a estreita Rua Adamczewski
contorna o olhar até se abrir em direcção ao cemitério
que fica no cimo da colina, onde as crianças brincam
aos castelos numa árvore sem pássaros.

Aqui a sombra da morte é tão presente quanto a do fim da tarde;
felizmente ainda mal passámos do meio-dia e os velhos
bebem aguardente de ervas no café à espera de quase tudo,
menos do grito de uma flor que aguarda um destino.

Mas eis que ele soa e o nosso tempo altera-se,
como se de ouvido encostado ao chão pudéssemos
associar o triunfo das formigas ao dos nossos antepassados
a caminhar lado a lado pela Rua Adamczewski acima
em direcção ao cemitério, de braços dados, enquanto cantam
Se não são os mortos que nos guardam,
porque é que os deitamos aqui em cima?

David Teles Pereira
Quando o amor morrer dentro de ti
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti
Roland Kirk dixit: 'piano é um instrumento racista
tem mais teclas brancas do que pretas'
Roland tocava sopros, claro
todos ao mesmo tempo

José Duarte

HÁ UMA GOTA DE SANGUE NO CARTÃO-POSTAL

eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
                                                 lívido
de medo e de amor

Antônio Carlos de Brito

CANÇÃO

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
-- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as veias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Poemas escritos por abismos sem fim, na
Minha alma, através da luz das minhas
Lágrimas, buscando a infância velha
Por naves desmedidas e finais, sangrando
Para sempre a sombra.

Fernando Botto Semedo

APONTAMENTO

curvada ao peso
ao peso brutal
dos blocos de pedra
e os olhos no chão
os olhos na terra
anda na obra
levando o cimento
a pedra e a cal
ao mestre pedreiro
e curvada ao peso
ao peso da vida
de lágrimas secas
e sangue sem vida
traz o seu filho
preso nos panos
dobrados nas costas
nas costas curvadas
ao peso brutal
do cimento e da areia
que leva cantando
ao mestre pedreiro

João Abel

SACRIFÍCIO

Foi na tarde morena da conquista.
Guisos, pendões, tinir de luz, corcéis.
Relâmpagos doirados pela vista...
Processional, El-Rei caminha -- e o cortejo é de painéis!

Tatuagens de alarido a incrustar a tarde. Palmas!
Cheiro álacre de febre... E as lanças a crescer...
Os corpos deixam transbordar as almas,
Tit'res, que a mão de Deus, apenas, faz mover...

Rola a hora de Deus pela campina rasa.
Hora de Sacrifício! A pira está em brasa.
A pedra de ara é branca e o fumo sobe a esmo.

Ergo a mão constelada de triunfos idos.
Súbito, a voz de Deus retine aos meus ouvidos:
Quebra o teu cetro e a lança, entrega-te a ti mesmo
Américo Cortês Pinto

A JOÃO RUI DE SOUSA

no aparecimento do seu Respirar pela água

Não só gravar no tempo o azul do mundo
em versos de cristal e claridade
ardendo entre vocábulos profundos
mas ouvir pela noite -- rocha densa --
a vida em seu fermento de raízes
quando a fonte respira e as águas pensam

Joaquim-Francisco Coelho