Mostrar mensagens com a etiqueta Ribeiro Couto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ribeiro Couto. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de novembro de 2010

CAFÉ

Sabor de antigamente, sabor de família,
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão da casa, com lenha do mato da casa,
Café para as visitas de cerimónia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada, para toda a gente

Ribeiro Couto

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

NOITE DE TORMENTA

A mão do vento é má e me procura;
fria, contra o meu rosto a não quisera,
mão que saiu de alguma sepultura
da mais perdida, mais remota era.

Nenhuma porta mais está segura:
o vento trouxe alguém que ali me espera,
alguém que com cicios de conjura
ri escarninho do pavor que gera.

Em noites de tormenta como esta,
penso na mão que outrora me acudia,
meigamente pousada em minha testa.

Cessou a chuva. O vento já não ouço.
A casa é como um berço... Principia
seu brando movimento de balouço...

Ribeiro Couto

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

SANTOS

Nasci junto do porto, ouvindo o barulho dos embarques.
Os pesados carretões de café
Sacudiam as ruas, faziam trepidar o meu berço.

Cresci junto do porto, vendo a azáfama dos embarques.
O apito triste dos cargueiros que partiam
Deixava longas ressonâncias na minha rua.

Brinquei de pegador entre os vagões das docas.
Os grãos de café, perdidos no lajedo,
Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,
Faziam sonhar (tantas mercadorias!)
E me ensinavam a poesia do comércio.

Sou bem teu filho, ó cidade marítima,
Tenho no sangue o instinto da partida,
O amor dos estrangeiros e das nações.

Ah, não me esqueças nunca, ó cidade marítima,
Que eu te trago comigo, por todos os climas
E o cheiro do café me dá tua presença.

Ribeiro Couto

sexta-feira, 23 de julho de 2010

SINTRA

Ervas de macio cheiro,
secura de ásperos cactos,
alegria dos contactos,
tristeza do passageiro --

Tudo! E este vago sentido
das superfícies do mundo,
a matéria e o eco profundo
do horizonte pressentido;

Tudo e nada; outra vez tudo;
nada outra vez -- mas, teimosa,
a languidez desta rosa
morrendo a mão de veludo.

Tudo agora, nada em breve,
enquanto a nuvem que passa
tem a mesma, a eterna graça
leve, leve, leve, leve...

Ribeiro Couto