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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

IDÍLIO MORTO

Que fará a esta hora a minha andina e meiga Rita
de junco e capulim;
agora que me asfixia Bizâncio e que dormita
o sangue, como débil conhaque, dentro em mim.

Onde estarão suas mãos que em posição contrita
engomavam nas tardes uma brancura ainda por ver;
agora, nesta chuva que me evita
o gosto de viver.

Que será de sua saia de flanela; de seus
trabalhos; seu andar;
do seu sabor a canas de maio do lugar.

Há-de estar à sua porta, olhando o céu nublado,
e a tremer dirá: «Oh que frio... meu Deus!»
E um pássaro selvagem chorará no telhado.

Cesar Vallejo

(José Bento)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Como vive essa rosa que prendeste
junto ao teu coração?
Nunca até hoje contemplei no mundo
uma flor sobre um vulcão.

Gustavo Adolfo Becquer

(José Bento)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DA ROSA

A rosa
não procurava a aurora:
quase eterna em seu ramo,
procurava outra coisa.

A rosa
não procurava ciência ou sombra:
confim de carne e sonho,
procurava outra coisa.

A rosa
não procurava a rosa:
imóvel pelo céu
procurava outra coisa.

Federico García Lorca

(José Bento)

domingo, 5 de setembro de 2010

A MARÍA ANTONIA DANS, NA GALIZA

1

Este cansaço, este rumor,
esta indiferença secular,
estes corpos afastados,
esta saudade sem podar
que cresce e cresce e dá flores
pardas de tédio -- vizinhança
das pradarias e do ácer,
do granito e do mar --,
estes caminhos e estes montes
onde a luz e o animal
vão em silêncio, caminhando
sempre com passo igual;
estas choupanas habitadas
por fumo e homens, esta paz
acostumada a este costume
de falar para calar;
e estes veleiros e estas redes
de içar vazias, de pescar,
de guardar as ovas
e curti-las no sal,
dormem -- verdade? -- nos teus quadros
ou irão despertar?

Angel Crespo

(José Bento)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

OS ARAUTOS NEGROS

Há pancadas tão fortes na vida... Eu sei lá!
Pancadas como do ódio de Deus; como se sob elas
a ressaca de todo o sofrimento
estagnasse na alma... Eu sei lá!

Poucas; mas acontecem... Abrem leivas escuras
no rosto mais duro e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de átilas selvagens;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.

São as profundas quedas dos Cristos da nossa alma,
de uma fé adorável que o Destino blasfema.
Tais pancadas sangrentas são as crepitações
de um pão que na porta do forno se nos queima.

E o homem... Pobre... Pobre! Volta os olhos, como
quando sobre o seu ombro uma palmada o vem chamar;
volta seus olhos loucos, e todo o já vivido
como um charco de culpa estagna em seu olhar.

Há pancadas na vida tão fortes... Eu sei lá!

Cesar Vallejo

(tradução de José Bento)