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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Não o sol
que no ar se esquece e aquece
não a lua
que no lago se reflui
mas o frio
mas o vento.

Não o corpo
que com mortes se sustenta
não o rosto
que com rugas se remenda
mas a fonte
mas a vida.

Helder Macedo

domingo, 10 de outubro de 2010

A meio do caminho
a mais de meia vida já vivida
reencontrei-me só na selva escura
da vida indecifrada
e não sei de que lado está a morte
e não sei se é o amor quem a sustenta
no tempo
que chegou
de destruir
para ver o que seja o que me sobra
no certo entendimento
de que as vidas são feitas
no perdê-las
ou nisso só existem
porque há vida somente quando há morte
e porque toda a selva
por mais cerrada e escura
contém o tempo já do seu deserto
na fértil luz difusa que a penetra
para nela executar o seu amor.

Helder  Macedo  

sábado, 23 de janeiro de 2010

Chegaram os pacotes com as cartas
os retratos os mapas os papéis
o que sobrou dos gestos e das almas
sem excessivo valor comercial.

Os outros preferiram os dejectos
e lá se engalfinharam nas heranças
computando os seus lucros e rancores
mudando fechaduras e pretextos.

Há pessoas que morrem duas vezes.
Para a primeira morte estava pronta
na segunda ficou possessa de ódio
pois soubera morrer e não deixaram.

Mandou que preparassem dois enterros
um para cada morte e cada vida
o primeiro com flores maternais
no segundo desfez o corpo em cinza.

Vejo-a agora de novo nos retratos
a mãe menina segurando rosas
o braço comatoso a acalentar-me
o inverno a nascer da primavera.

Helder Macedo