autor: Mário Avelar (Lisboa, 1956)
título: Cidades de Refúgio
colecção: «The Impossible Papers»
editora: Black Sun Editores
local: Lisboa
ano: 1991
págs.: 24
dimensões: 17x12,60,2 cm. (brochado)
capa: Baptism in Kansas, de John Stewart Curry (reprodução parcial)
impressão: Tipografia Freitas Brito, Lisboa
tiragem: 300
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sábado, 21 de maio de 2011
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
MEDITAÇÃO 6.
Naum 2.4. Tinge-se de rubro o escudo dos seus valentes, seus guerreiros vestem-se de escarlate; o aço dos carros preparados parece fogo, e os cavalos empinam-se. O mercador e os sonhos
Mais correcto seria dizer pesadelos.
Todavia, ao despertar de madrugada,
outros ruídos emergem distantes: as
pancadas ritmadas de um velho relógio
de sala, o restolhar de pássaros numa
água-furtada, a sirene de uma
ambulância, ou um cão ladrando muito,
muito longe, ou vento agitando os
plátanos, ou vozes de crianças... ainda
vozes de crianças. Um insecto imenso
baila no cortinado em fusão com o
fumo, uma breve encenação da luz.
O fumo anula o revérbero mas
aquelas vozes soam mais perto do sangue.
Mário Avelar
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
PROMENADE -- LUGAR CHEIO DE INSCRIÇÕES (PAUL KLEE)
Às vezes sento-me na
sala a ouvir Coltrane,
pursuance... as melodias
agitam o teu olhar,
afagam bem lá no fundo
as águas azuis tépidas
da lagoa. Nesse instante,
a natureza parece
ocultar uma ausência
de piedade, parece
dizer: é tão simples, tão
natural. Deixa fluir,
como o sangue, ou como
um corpo sensual, vivo,
quente... que, indiferente,
segue por entre a tribo
e, ainda quente, nela
se dissolve. Haja Deus!
sala a ouvir Coltrane,
pursuance... as melodias
agitam o teu olhar,
afagam bem lá no fundo
as águas azuis tépidas
da lagoa. Nesse instante,
a natureza parece
ocultar uma ausência
de piedade, parece
dizer: é tão simples, tão
natural. Deixa fluir,
como o sangue, ou como
um corpo sensual, vivo,
quente... que, indiferente,
segue por entre a tribo
e, ainda quente, nela
se dissolve. Haja Deus!
Mário Avelar
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«a paleta e o mundo»,
«o silêncio»,
Mário Avelar
domingo, 19 de dezembro de 2010
HERBA SANTA
Associo melodias às estações,
a instantes mais ou
menos vagos na memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.
Regressara nesse tempo da pátria
dos heróis. Os dias fluiam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.
Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?
Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega.
a instantes mais ou
menos vagos na memória. O
Verão de oitenta e cinco, por exemplo.
Regressara nesse tempo da pátria
dos heróis. Os dias fluiam entre
a viagem de um amor vindo
de longe e um almoço fora de horas
num qualquer snack em Lisboa, cracking.
Com liberdade, livros, flores e
a lua, quem não pode ser feliz?
Sim, havia ainda os livros e
a música, o frágil encanto de
Suzanne Vega.
Mário Avelar
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«o silêncio»,
Mário Avelar
domingo, 1 de agosto de 2010
MIRAGENS
I fall, more and more,
Into my own silences.
Theodore Roethke
Os sessenta iam ainda
no início, sem memória
de guerras, revoluções
ou de fluxos migratórios.
A terra aguardava em
silêncio a chegada
das betoneiras, dos patos
bravos. Outras migrações...
Um domingo de manhã,
em Maio, saímos a
explorar lugares ocultos,
pequenas grutas e antas,
mais tarde ameaçadas
pelas aves de arribação.
Os tais patos... bravos, claro.
Olhámos o vale. O
meu pai segurava-me
a mão. À nossa frente o
sítio onde se ergueria,
dez anos depois, a casa.
Casa feita, pêga morta.
Um ditado apenas e
para mim um medo a pairar,
dia após dia, como
se alguma oculta verdade
ali se insinuasse.
Como se o povo tivesse
razão. Enfim, zombarias
do destino. Ou do acaso?
Lá para o fim da manhã,
descobri junto à anta
um minúsculo esqueleto
de plástico. Curiosa
ironia vinda de outras
brincadeiras, porventura
mais inocentes, das crianças
dos bairros de lata. O
esqueleto ainda o vi,
há alguns meses, no sótão,
entre molduras partidas,
velhas cartas sem destino
ou memória, e as
sempre inevitáveis teias
de aranha. Um pequeno
sinal como outros, uma
pedra um nome um sinal só
desses dias; um vestígio
da rua das oliveiras,
no tempo em que somente
elas e o casal de
velhos loucos ali viviam.
Mário Avelar
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