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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

BARCOS DE PAPEL

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia de papel toda uma armada
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, tal como aqueles,

perfeitamente, exatamente iguais...
-- que os meus barquinhos, lá se foram eles!
foram-se embora e não voltaram mais!

Guilherme de Almeida

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CORAÇÃO

Lembrança, quanta lembrança
dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
minha bolha-de-sabão!

Infância, que sorte cega,
que ventania cruel,
que enxurrada te carrega,
meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
e que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
neste mundo de ilusão:
vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
cantando num mesmo tom,
só tu, coração, não mudas,
porque és puro e porque és bom.

Guilherme de Almeida

terça-feira, 26 de outubro de 2010

EPÍGRAFE

Eu perdi minha frauta selvagem
entre os caniços do lago de vidro.

Juncos inquietos da margem;
peixes de prata e de cobre brunido
que viveis na vida móvel das águas;

cigarras das árvores altas;
folhas mortas que acordais ao passo alípede das ninfas;
algas,
lindas algas limpas:
-- se encontrardes
a frauta que eu perdi, vinde, todas as tardes,
debruçar-vos sobre ela! E ouvireis os segredos
sonoros, que os meus lábios e os meus dedos
deixaram esquecidos entre
os silêncios ariscos do seu ventre.

Guilherme de Almeida