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quarta-feira, 11 de maio de 2011

As cartas dele! Papel morto e frio...
Parecem hoje estremecer, no entanto
e tomar vida, e palpitar, enquanto
com as trémulas mãos lhes solto o fio.

Esta lembra um encontro fugidio;
esta, uma coisa simples: o encanto
dum aperto de mão; mas diz-me tanto
que um dia todo, ao lê-la, choro e rio.

Esta me escreve: «Adoro-te, querida!»
e caí, deslumbrada, a soluçar
como se fosse o fim da minha vida!

Mas esta... A tua fé, no próprio altar,
viste, ó Amor, vilmente escarnecida,
se o que esta diz eu devo acreditar.

Elizabeth Barrett Browning

(Luís Cardim)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

LULLABY

Passarinho pequenino,
que dizes tu, tão cedinho?
Quero voar, minha mãe,
quero voar deste ninho...
Passarinho, passarinho,
     -- meu tontinho! --
Deixa as penas crescer bem,
logo no ar te sustém...

Bebèzinho pequenino,
que palras tu, tão cedinho?
Quero correr, minha mãe,
voar como o passarinho...
Bebèzinho, bebèzinho,
     -- meu tontinho!
Dorme um pouco mais, meu bem...
Cedo voarás, também...

Tennyson

(Luís Cardim)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

          Brame, brame, brame
nas tuas frias pedras pardas, Mar!
Ah, soubera dizer-te a minha boca
tudo quanto me está a recordar!

Feliz do bom mocinho, lá na praia,
a correr, a brincar com sua irmã!
Feliz do pescador, no seu batel,
a cantar a alegria da manhã!

E os soberbos veleiros vão vogando
para bom porto, sob o vasto céu;
-- mas quem me dera a mim tornar a ouvir
o som de certa voz que emudeceu!

          Brame, brame, brame
     nas tuas cavas penedias, Mar!
Mas ai da graça terna da hora que passou,
     e nunca, nunca mais há-de voltar!

Tennyson

(Luís Cardim)

quarta-feira, 30 de março de 2011

DAYBREAK

Ergueu-se o vento lá do mar,
e disse às brumas: «Destroçar!»

Ao marinheiros: «Velejai!
Arriba! A noite já lá vai...»

Foi terra dentro, em correria,
sempre a bradar: «É dia! É dia»

E os arvoredos jubilaram:
logo de verde embandeiraram...

E disse às aves pequeninas:
«Orai! Cantai vossas matinas!»

Foi aos casais, chamou o galo:
O dono, é tempo de acordá-lo!...»

E alou às messes, brandamente:
«Curvai-vos ante o sol nascente!

Gritou enfim ao alto sino:
«Vamos: proclama o sol divino!»

...Mas disse aos mortos, num segredo:
«Dormi, dormi! Ainda é cedo.»

Henry Wadsworth Longfellow

(Luís Cardim)

terça-feira, 22 de março de 2011

Death takes us by surprise

(excerto)
À memória de Leonardo Coimbra

De surpresa a morte vem,
no caminho nos detém:
parece o plano -- frustrado --
e o viver -- inacabado...

Mas só no Além se projecta,
perfeita, a curva completa:
é como um arco de ponte
que nas águas se defronte...

O que importam Vida e Morte
sempre que a Vida é mais forte,
-- e a mensagem que ficou
em mil vidas perdurou?

Quando se apaga uma estrela
continuamos a vê-la:
a sua luz, como um grito,
vai correndo o infinito...

E quando uma voz se cala
não cessamos de escutá-la:
ressoa em nós, tempos fora
com o fulgor duma aurora!

Henry Wadsworth Longfellow

(Luís Cardim)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os anos vêm e vão,
gerações baixam à terra,
mas nunca em meu coração
fenece o amor que ele encerra...

E só quisera, ao morrer,
quando a esperança é já finda,
de joelhos vos dizer:
Senhora, eu vos amo ainda!

Heinrich Heine

(Luís Cardim)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Love's philosophy

The Fountains mingle with the river               Correm as fontes ao rio
And the rivers with the ocean,                      os rios correm ao mar;
The winds of heaven mix for ever                 num enlace fugidio
With a sweet emotion;                                 prendem-se as brisas no ar...
Nothing in the world is single,                      Nada no mundo é sòzinho:
All things by a law devine                             por sublime lei do Céu,
In one another's being mingle -                     tudo frui noutro carinho...
Why not I with thine?                                  Não hei-de alcançá-lo eu?

See the mountains kiss high heaven            Olha os montes adorando
And the waves clasp one another;              o vasto azul, olha as vagas
No sister-flower would be forgiven            uma a outra se osculando
If it disdain'd its brother:                            todas abraçando as fragas...
And the sunlight clasps the earth,               Vivos rútilos desejos,
And the moonbeams kiss the sea -            no sol ardente os verás:
What are all these kissings worth,              --Que me fazem tantos beijos,
If thou kiss not me?                                   se tu a mim mos não dás?

Shelley
(Luís Cardim)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

STANZAS FOR MUSIC

Muita mulher tem beleza,
nenhuma a tua magia;
e a tua voz tal riqueza,
que nem a da melodia
por sobre as águas do mar:
quando, num encantamento,
sonhando adormece o vento
e a onda pára um momento
e desfalece, a brilhar...

E a lua no céu fiando
a sua teia, a sorrir;
e o mar brandamente arfando
qual criancinha a dormir:
assim, dentro da minha alma,
eu me inclino, ao encontrar-te,
me suspendo, a escutar-te,
me curvo, para adorar-te:
com funda emoção, mas calma.

George Gordon Byron

(Luís Cardim)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

HEIDENRÖSLEIN

Viu um rapaz uma rosa
-- rosinha do silvado...
Era tão fresca e formosa
que de vê-la assim airosa
quedou logo enamorado...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Diz ele: Vou apanhar-te,
-- rosinha do silvado!
E vai ela: Hei-de picar-te!
Ficas de mim a lembrar-te!
que desprezei teu cuidado...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Logo o cruel a colheu,
-- rosinha do silvado!
Ela bem se defendeu,
mas de nada lhe valeu:
já era aquele o seu fado!...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Goethe

(Luís Cardim)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

MARY MORISON

Maria, assoma à janela:
chegou por fim o momento!
O teu sorriso empobrece
os oiros do avarento...
Até me fazia escravo
a moirejar noite e dia,
se como prémio tivesse
a minha doce Maria!

Ontem, ao som das violas,
a aldeia inteira bailava;
só eu, sem ouvir nem ver,
para ti, meu bem, voava...
Fossem loiras ou morenas,
nenhuma ali te vencia...
Eu, então, só me queixava:
Não sois a minha Maria!

A quem por ti dera a vida,
vais, Maria, enlouquecer?
Ou rasgar-lhe o coração
sem culpa de bem-querer?
Se amor por amor não dás,
pena tem desta agonia...
Mal ficava ser cruel
à minha doce Maria!

Robert Burns

(Luís Cardim)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

MY HEART IS SAIR FOR SOMEBODY...

Trago inquieto o coração
por alguém, que nem eu sei...
Quisera perder as noites
     a pensar n'alguém,
     por amor d'alguém,
     ai, por amor d'alguém!
Ir-me por todo esse mundo
     por amor d'alguém!

Santos ao amor fagueiros,
sorri docemente a alguém!
Livrai-o de todo o p'rigo;
     e dai-me esse alguém,
     trazei-me esse alguém,
     ai, trazei-me esse alguém!
Que eu... -- que não farei eu
     por amor d'alguém?

Robert Burns

(Luís Cardim)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

I LOVE MY JEAN

Anda alegria no vento
sempre que vem do sol-pôr:
lá onde vive a serrana
que me enfeitiçou d'amor...
Lá nos montes, pelas fontes,
pelos pinhais, vai sòzinha...
A cada momento, o vento
me faz lembrar -- Joaninha!

Vejo-a nas florinhas tenras,
que dá graça de as olhar;
ouço-a no trilo das aves
que pões bruxedo no ar:
a papoila que floresce
por entre a messe ou na vinha,
o rouxinol que gorjeia,
só me dizem -- Joaninha!

Robert Burns

(Luís Cardim)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Pode lá ser! Há três dias
que me abrasa esta paixão!
E vai durar outros tantos,
sendo a maré de feição...

Bem pode o Tempo voar
que não descobre um amante,
na redondeza da terra,
tão afincado e constante!

E nem mereço louvor:
como a ideia me arrepela!...
Pois onde iam já meus olhos
se outra fora que não ela?

Se outra fora que não ela,
com seu palminho de rosto,
já doze dúzias -- nem menos! --
tinham tomado o seu posto...

John Suckling

(Luís Cardim)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Porque pálido e triste, meu rapaz?
     Dize: porque tão pálido?
Ou, quando um ar jocundo não lhe apraz,
     um ar triste -- é mais cálido?...
     Dize: porque tão pálido?

Porque silente e mudo, pobre jovem?
     Dize: porque silente?
Ou, quando meigas falas a não movem,
     ser mudo -- é eloquente?...
     Dize: porque silente?

Vamos, vamos!... Juízo! O teu penar
     que pode ter, que enleve?
Se por si mesma te não quer amar,
     mais fria do que a neve...
     -- o demónio que a leve!

John Suckling


(Luís Cardim)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O casamento de almas de eleição,
nada o embarga. Nunca foi amor
o que vacila posto em provação,
ou se bandeia ao próprio destrutor.

Ah, não! O amor é um sinal constante,
encara as tempestades sem tremer:
a Tramontana desta nau errante,
cuja «altura» nos salva -- ou faz perder.

Não teme, ó Tempo, a tua foice adunca:
róseas faces e lábios, esses sim;
não muda em horas, dias, meses, -- nunca! --
teima e perdura até ao fim do fim...

E se por falso rumo agora vou,
-- jamais poetei! jamais alguém amou!

Shakespeare

(Luís Cardim)

domingo, 14 de novembro de 2010

Ah! não chores por mim  quando eu morrer,
quando o plangente sino magoado
disser ao mundo vil que, fatigado,
com vilíssimos vermes fui viver.

Lendo estas linhas, deves esquecer
a mão saudosa que lhes deu traslado:
que o bem de perdurar num peito amado
em mal se torna quando o faz sofrer.

Não, se vires esta rima dolorida
quando a terra em seus braços me retome,
que finde o teu amor co'a minha vida,
e nem recordes o meu próprio nome!

Pois se o mundo te vê na dor absorto,
inda zomba de mim depois de morto.

William Shakespeare

(Luís Cardim)

domingo, 3 de outubro de 2010

Quando ao foro subtil do pensamento
eu convoco as memórias desta vida
cheia de sonhos vãos e, revivida,
a velha dor se faz novo tormento;

Então meus olhos baços, num momento,
a mil frontes amigas dão guarida:
volto a sofrer a mágoa já cumprida,
volto a chorar os mortos que avivento...

Então meus olhos duros embrandecem,
passo de pena em pena, e vou somando
a triste soma dos que não me esquecem,
e da noite sem fim me estão fitando:

Mas se entretanto me lembrar de ti,
perdas não tive, mágoas não sofri.

William Shakespeare

(Luís Cardim)

sábado, 18 de setembro de 2010

Com que passadas tristes vais subindo
ó lua, e tão silente, e desmaiada!
Pois quê?! Também na célica morada
anda o Archeiro as setas despedindo?

Se uns olhos que ele abrasa há tempo infindo
conhecem já quem lhe caiu na alçada,
nesse teu ar e graça abandonada
leio que também tu o vens servindo.

Dize, então, companheira, e doce amante:
também lá é loucura o amor constante?
As deusas, desdenhosas também são?

Também movem amor, e zombam logo
dos corações que amor acende em fogo?
Também lá é virtude a ingratidão?

Sir Philip Sidney

(Luís Cardim)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

THE GRAVE

Já tinhas pronta uma casa
inda estavas por nascer;
não é alta nem folgada,
mal te podes estender;
o tecto não se alevanta,
fica em cima do teu peito;
é à justa o comprimento
por tua medida feito;
as paredes são de terra
talhadinha com cautela;
não tem postigo nem porta
nem poderás sair dela;
chamas pelos teus amigos,
nenhum quedou a teu lado;
ninguém virá de mansinho
ver se dormes descansado:
pois só os vermes, aí
na pousada negra e fria,
não terão nojo de ti
e te farão companhia.

Anónimo (Século XIII)
(Luís Cardim)