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domingo, 6 de março de 2011

CRÂNIO

          AO JOSÉ RÉGIO

Esmigalhem meu crânio e que as legiões
passem sobre ele; e que um novo Átila renasça
e passe também sobre ele; ou que ele seja a taça
que mitigue a sede aos que tenham sede, seja

do que for, e que toda a treva nele se afunde
e o mundo, quando for maior, caiba também
dentro dele, e que ele seja o mal e seja o bem
-- strutura universal onde tudo se funde.

A alma de Baudelaire, sedenta, beba por
ele absinto e a de Giles de Rai -- oh! beba sangue.
Salomé, Taïs, ou Safo, os filtros do amor

e da morte. Que dentro dele o Universo é
mesquinho e Deus, meu Deus!, não tens força, és exangue
para nas mãos o teres com unção e com fé.

António de Navarro

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.

Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
-- Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza

Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração.

Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...

António de Navarro 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fica o passar do tempo na paisagem
-- fica numa folha que passa
e seca
tomba...

Fica numa sombra
a completar a imagem
da eternidade.

António de Navarro

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Donde vem o luar?!
Do sol
que tomba?

Da luz sombria do meu olhar!

A luz foi sempre um girassol
de sombra.

António de Navarro

domingo, 12 de setembro de 2010

CANÇÃO

Ânfora, gomil
por que bebo fel e mel,
és tu,
amor meu;
e o filtro que adormeceu
num sonho d'ópio subtil,
desentranhado do núbil perfil
do teu corpo nu,
és inda tu,
amor meu!
O meu espelho de cristal,
emoldurado a marfim e prata
lavrada
por um artista gentil
como Cellini,
ficou quebrado,
ora vê lá tu,
ao reflectir a escarlata
dos teus lábios de rubi,
e a sombra maga do perfil alado
de graça do teu corpo esguio e nu,
e lindo!
Ora vê lá tu;
eu jamais tal vi,
e jamais vejo,
amor meu,
ânfora por que bebo
o mais amargo fel
do mais doce, do mais impossível desejo.

António de Navarro