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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Quen a sesta quiser dormir,
conselhá-lo-ei a razon:
tanto que jante, pense d'ir
à cozinha do infançon:
e tal cozinha lh' achará,
que tan fria casa non á
na oste, de quantas i son.

Ainda vos en mais direi
eu, que um dia i dormi:
tan bõa sesta nan levei,
des aquel di' an que naci,
como dormir en tal logar,
u nunca Deus quis mosca dar
ena mas fria ren que vi.

E vedes que ben se guisou
de fria cozinha teer
o infançon, ca non mandou
des ogan' i fogo acender;
e, se vinho gaar d'alguen,
ali lho esfriarán ben,
se o frio quiser bever.

Pero da Ponte

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Queridas pastelarias
queridos pastéis
queridas pessoas
querida fé
querido café

Adília Lopes

terça-feira, 10 de maio de 2011

A ALCACHOFRA

Filha das águas e da terra
Para quem lhe almeja os dons
É corpo numa veste de recusa.
E na sua beleza obstinada
Bem no cimo lá da haste
Lembra uma jovem cristã
Que cota de espinhos usa.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

terça-feira, 19 de abril de 2011

MAÇÃS E PÊRAS

Aceitai,
     Como rostos amáveis que se vos mostrassem
     Ou tímidos seios palpitando vossas mãos
estas maçãs: Pérolas entre nós espalhadas
Como botões em seu ramo postos.
Tomai-as e ofertai-as aos presentes
Como vinho preso de surpresa
Pelo gelo de inverno.
Eis também pêras para duplicar a minha dádiva.
E apenas se me oferece dizer:
São tão-somente brancas faces
Onde pousaram profundos olhos negros.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

domingo, 13 de março de 2011

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão -- é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
-- É com as vozes que o silêncio ganha.

Herberto Helder

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

LE THÉ

Miss Hellen, versez-moi le Thé
Dans la belle tasse chinoise,
Où des poissons d'or cherchent noise
Au monstre rose épouvanté.

J'aime la folle cruauté
Des chimères qu'on apprivoise:
Miss Hellen, versez-moi le Thé
Dans la belle tasse chinoise.

Lá, sous un ciel rouge irrité,
Une dame fière et sournoise
Montre en ses longs yeux de turquoise
L'extase et la naïveté;
Miss Hellen, versez-moi le Thé.

Théodore de Banville

domingo, 16 de janeiro de 2011

BENDITO O FRUTO

Benza-os Deus:
Os frutos acres, as cerejas, as laranjas,
Se ao beijo da manhã o sol descobre;
Laranjas -- frutos de oiro à Apollinaire
E brincos de cerejas,
Coradas de pudor à António Nobre.

Bendito o fruto, a mulher.

Afonso Duarte

sábado, 4 de dezembro de 2010

THIS BREAD I BREAK

This bread I break was once the oat,
This wine upon a foreign tree
Plunged in its fruit;
Man in the day or wind at night
Laid the crops low, broke the grape's joy.

Once in this wine the summer blood
Knocked in the flesh that decked the vine,
Once in this bread
The oat was merry in the wind;
Man broke the sun, pulled the wind down.

This flesh you break, this blood you let
Make desolation in the vein,
Were oat and grape
Born of the sensual root and sap;
My wine you drink, my bread you snap.

Dylan Thomas

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PARA A AVÓ ZÉ

Lembro-me de como gostava de estar
debruçado sobre a mesa da cozinha,
vendo a Avó a ferver as seringas
numa velha panela redonda de esmalte.
A mesa era grande, de mármore,
e ali fazia os deveres da escola,
num caderno quadriculado, sujo de enganos
da aritmética, com um n.º 2 mal aparado.
Hoje a Avó já não ferve as seringas,
mas desfaz os morangos em compota,
cujo aroma nos anuncia
as escuras tardes de Outono.

Estoril, 23-VI-1985

terça-feira, 16 de novembro de 2010

CAFÉ

Sabor de antigamente, sabor de família,
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão da casa, com lenha do mato da casa,
Café para as visitas de cerimónia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada, para toda a gente

Ribeiro Couto

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Esta noite a tua boca é a mais bela rosa do universo
Bebo para afogar este pesadelo
Que o vinho seja rubro como as maçãs do teu rosto
E os meus versos tão leves como os anéis dos teus cabelos

Omar Khayam

(J. Sousa Braga)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

OS ÚLTIMOS FRUTOS

Que os últimos frutos sequem, nem por isso deixam de ser os mais apetecidos.
As próprias estações confundem-se num frasco de compota
de cujo fundo inúmeras gerações parecem ter saído.
Leva-se a mão ao fruto e um ardor consome-se na boca --
álcool de que o sentimento impróprio decai: enxuto, ressequido.
Ah, deixa-me beijar a tua boca -- até que do fundo
de um sabor a mosto eu me sinta recluso e excluído.
Liofilizados, antes da estação, agora caem os frutos.
Uns dão a luz ao dia, outros, à morte, um sentido inapetecido.

Fernando Guerreiro

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

MONTE CARLO

Para o tédio
Quero uma bica e um brandy normal
Para o remédio
Um copo de água natural
E também quero um jornal
Mas traga-me um desportivo
Que sempre é mais digestivo

Pedro Bandeira Freire

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O estilo do vinho (também serve: o vinho do estilo) advém do seu
outono, da sua maturidade -- do corpo substantivo da idade.
Casimiro de Brito

terça-feira, 31 de agosto de 2010

AÇÚCAR

expectativa: um pouco da angústia que o licorne
retém. os primeiros passos sobre um vasto átrio
onde se guardavam rosas mornas como lábios.
os mesmos que diziam: «é na alegria que se
constroem ninhos, aqueles que a vida vive
no conforto dos breves sentires. no amor a branda
safra das formigas, como o abraço com que me acolhes».
junto às rosas um açucareiro azul com casinhas doces
e licor dentro, magenta, alguns duendes dormem
sobre cogumelos coloridos.
os primeiros passos foram de açúcar

João Candeias

VIGÍLIA

o frio corta
em duas franjas
a paisagem
fiapos de azul
entrecortados
por serra
sono
cointreau
creme de café
cigarrilhas
o frio corta
a água queima
amor
tecendo o corpo creme
de café

inês, adriana, vera
revistas em quadrinhos
pôquer cama quer
historinhas, os meninos

murilo dorme
maurício recorta me re/cor
da eu pó menino tam
borilando a máquina

ulla corre
grita chispa
se mela remela
clama reclama
«perfuminho é meu
máquina é meu tinta
é meu é meu o mundo
é meu» vera
corre atrás o mundo
é de quem sabe amá-lo
por entre as frestas
e os fiapos de seu reino
profundo entre
cortado amor
tecido
serra
azul
sono
cointreau
creme de café
cigarrilhas

Ronaldo Werneck

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

MAJESTIC CAFÉ

No Majestic meninos (e meninas)
Alargam orelhas
Inclinados no estuque.
Azedam natas.
Bebe-se café à chávena.

Majestic Café.

Vidro lapidado agreste
Incita à entrada
E dentro dos espelhos a cismar
Já não se cospe.
Cuspiu-se na latrina.
Mesmo assim gris
Do sopro saturado do café e
Das risadinhas das almas.

José Emílio-Nelson

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia

Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
tropeço na claridade da primavera
e vou tomar café com muito açúcar

Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade

E quanto tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te num gesto amplo de incertezas
o horizonte com barcos

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A MULHER ILUSTRADA

O inverno traz manhãs baças pelo vidro
e o frio vai-me desenhando na pele tatuagens
que resistem à superfície antes de se afundarem
na parede dos ossos. Desenham-me o riso na pele fina
das crianças, as olheiras por cima da noite em claro,
as rugas vincando o teu rosto como um mapa do metro,
as varizes desenhando nas pernas o que te ia nos braços.

O homem do quiosque sorri pelo vidro, o cheiro do café
atravessa a rua como bálsamo sobre o corpo em chamas
nesta manhã de inverno. As tatuagens desenham-me a pele
enquanto nos tocamos sob o aroma do café.
É fácil perdê-las, a pele não guarda vestígios,
mas abre-se para dentro e deixa nos ossos um visco
espesso, um vómito coberto pela maquillage.

Rosa Alice Branco

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

a uma deliciosa negrinha
que, de mini-saia todas as manhãs me serve
um delicioso mini-café, mostrando muito mais
do que lhe convém

rasgo-te a saia não creias
poder negar por mais tempo
a razão que é meu tormento
tua bunda poderosa
serves à mesa o café
que me provoca e revive
serves e anzolas manhosa
tua bunda viciosa
bunda que ainda não tive
mas vai-te escudando tu
como te cumpres vaidosa
já me ultrapassaste a raia
que um dia de estes me passo
alargo à bunda um abraço
grito um grito Ivanhoe
bebo o café vou-te ao cu
e nem te restauro a saia

Jorge Marcel