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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A vida de tudo quanto vive
          é penhor do Nada.
O mundo que agora une
          é o que amanhã apartará.
A vida dá-nos o Hoje para nos aproximar
          e a Eternidade para a separação.
Possui acaso o rei o mistério da morte?
O seu poder contraria o transe do destino?
Não é isso que vejo!
A morte desfaz o que a união congrega:
Ó colinas vestidas de evanescentes mantos
Ó vida aniquiladas com brutal furor
Ó almas atingidas de insanável mal,
Não sabeis que suas mãos profanam os haréns,
Os mais nobres príncipes e as suas damas?
Que ela é o mal que abate o monarca
Com golpe fero que atrai a compaixão?
Que contra ela os elementos não são armas
Nem as lágrimas lhe dão sequer remédio?
Logro contra ela é o recurso dos suspiros!
Logro contra ela é o socorro do pranto!
Como pôr fim a um mal com outro mal?
Como tratar a dor com outra dor?

Ibn Darraj al-Qastalli

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

AQUELE QUE PASSA

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figuras deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de
                                                                                                                              [amor,
E em ti não há membro ou ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de
                                                                                                                              [amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando em ti, jão não bela, em ti já não jovem, o aromo precioso do deus:
Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.

Ada Negri

(Jorge de Sena)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O que te leva, rio, a todos leva em si.
Aceita com coragem males e desgraças.
Em vão lutas e gritas, pois por mais que faças
aquel' que a todos leva, também leva a ti.

Paladas de Alexandria

(Jorge de Sena)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

HENRY LAYTON

Quem quer que sejas que aqui passas
sabe que meu pai era um carácter doce
e minha mãe violenta,
pelo que nasci feito de duas metades opostas
não misturadas nem fundidas,
mas diversas, e fràgilmente uma à outra soldadas.
Alguns de vós viram-me ser doce
outros violento
outros as duas coisas.
Mas não foi nenhuma das metades o que acabou comigo.
Foi o cair delas cada uma para seu lado.
nunca parte uma da outra,
o que me transformou numa vida sem alma.

Edgar Lee Masters

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olha essas flores. São, assim
Regadas pela dádiva da chuva,
Como que estrelas num céu de jardim
Devagar tombando uma a uma.

Furtivamente querendo escutar
Dir-se-ia que um génio de espuma
Procurou saber o seu segredo
E se desfolharam para o castigar.
E eis que a mão da brisa em seu enredo
Sobre o inquieto dorso do arroio
Caprichou em bolhinhas de enfeitar.

Ibn Al-A'lam As-Santamari

(Adalberto Alves)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Da Morte o gado somos, matadouro a vida.
A morte nos abate -- sabe Deus porquê.

Paladas

(Jorge de Sena)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

POLÍTICA

No nosso tempo, o destino do homem propõe o seu sentido em termos de política. (Thomas Mann)

Com esta rapariga ali especada
Como posso eu atentar
Em políticas romanas
Ou russas ou espanholas?
Quem fala é homem viajado
Que há-de saber o que diz,
E muito lido político
Que tudo meditou bem.
Será verdade o que dizem
De guerras e mais desgraças.
Mas quem me dera ser jovem
Com aquela nos meus braços!

Yeats

(Jorge de Sena)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sou Ibn 'Ammar: a minha glória
Não há quem a possa ignorar
A não ser tolos, dos quais não reza a história,
E que nem astros conseguem enxergar.

Se o meu Tempo me despreza
Não é isso motivo para espanto
Notas em livros é o que mais se preza
E nas margens se escrevem, no entanto.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A PÓSTUMO

Viverás amanhã, sempre me dizes, Póstumo.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.

Marcial

(Jorge de Sena)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

ORAÇÃO DO ATEU

Ouve meu rogo, Deus que não existes,
em teu nada recolhe as minhas queixas.
Tu, que aos homens mais pobres nunca deixas
sem consolo de enganos. Não resistes

a nosso rogo, e ao nosso anseio assistes.
Quando da minha mente mais te afastas,
eu mais recordo essas palavras castas
com que embalou minha ama as noites tristes.

Que grande és tu, meu Deus! Tu és tão grande
que não passas de Ideia; e é tão estreita
a realidade mesmo se se expande

para abarcar-te. Sofro à tua espreita,
inexistente Deus. Pois se viveras
existiria eu também deveras.

Miguel de Unamuno

(Jorge de Sena)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eis nuvens...
Que espessas são!
Parecem formadas,
Deste lado do azul do céu,
Do fumo que ao arder
Madeira verde lhes deu.

Vem chuva fina,
        Poalha de prata
        A polvilhar terra ambarina.
Mas se um instante
O sol fica a brilhar
        É como escrava provocante
        Que se mostra a quem a vai comprar.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Alongado no leito, e a noite silenciosa,
Mal eu cansados olhos ao repouso dava,
Quando o cruel Amor me agarra p'los cabelos,
Me acorda e manda que em su' honra eu vele.
«Ó escravo meu, me diz, ó tu que a mil amaste,
Sòzinho jazes só, ó duro peito, aqui?»
Descalço e semi-nu, atiro-me p'ra fora,
Pelos caminhos vou, sem que caminho encontre.
E sigo sempre, e paro, e no parar hesito
Entre a vergonha de ir e o tédio de voltar.
Calam-se humanas vozes, e da rua os ruídos,
Ave nenhuma canta, e sequer ladram cães.
De tudo, apenas eu me atrevo a estar desperto,
Obedecendo ao império, Grande Amor, de ti.

Petrónio

(Jorge de Sena)

terça-feira, 31 de maio de 2011

A SERPENTE

Muito comprida.

Jules Renard
(Jorge de Sena)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Minha alma quer-te, ainda que em tortura,
E sigo-te alegre na ânsia de procura.
Que estranho, ser defesa a nossa ligação,
Se os desejos ambos concordaram!
Que quereria mais o coração
Quando amargurado te buscou em vão
E meus olhos te viram e amaram?
Como desejo que quem tem poder
Sobre ti em nosso encontro não esteja!
Só assim a minha sede se vai beber
Em doce fonte se teus lábios beija.

Ibn 'Ammar
(Adalberto Alves)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

É um mal a morte,
E os deuses assim pensam:
Ou já estariam mortos,
Há muito, muito tempo...

Safo

(Jorge de Sena)

O CORVO

-- Quê? quê? quê?...
-- Nada.

Jules Renard
(Jorge de Sena)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

As cartas dele! Papel morto e frio...
Parecem hoje estremecer, no entanto
e tomar vida, e palpitar, enquanto
com as trémulas mãos lhes solto o fio.

Esta lembra um encontro fugidio;
esta, uma coisa simples: o encanto
dum aperto de mão; mas diz-me tanto
que um dia todo, ao lê-la, choro e rio.

Esta me escreve: «Adoro-te, querida!»
e caí, deslumbrada, a soluçar
como se fosse o fim da minha vida!

Mas esta... A tua fé, no próprio altar,
viste, ó Amor, vilmente escarnecida,
se o que esta diz eu devo acreditar.

Elizabeth Barrett Browning

(Luís Cardim)

terça-feira, 10 de maio de 2011

A ALCACHOFRA

Filha das águas e da terra
Para quem lhe almeja os dons
É corpo numa veste de recusa.
E na sua beleza obstinada
Bem no cimo lá da haste
Lembra uma jovem cristã
Que cota de espinhos usa.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Se me amas busca juvenil amor
Que contigo partilhe a vida e o lar:
Sequer posso pensar em que seria
A amante velha de um marido jovem.

Safo

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A BALEIA

Tem na boca barbas de sobra para fazer um espartilho. Mas com aquela
                                                                                                   [cintura!...
Jules Renard

(Jorge de Sena)