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sábado, 10 de setembro de 2011

ESCURIDÃO

Vou pensando em viver. Entre-tem-me. Se algum dia até isto me voar, fecho as portas e as janelas, apago a luz e deito-me no chão a um canto.

António Madeira
[Branquinho da Fonseca]

sábado, 27 de agosto de 2011

CONVICÇÃO

Cai a tarde, cai a noite...
As sombras erguem-se do chão, fazem danças, contra-danças, rondas, ciladas.
As luzes da Câmara Municipal, presas aos fios que as vivem, guardam-nas e elas dançam-lhes de roda.
Eu passo; mas não passo como uma sombra: sou eu. Tenho um cartão de identidade e fatos por medida.

António Madeira
(Branquinho da Fonseca)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

PIRATARIA

     Antigamente embarquei para a Índia.
     Mas quando a estrela não é boa já se não volta a Lisboa nem se lá chega, também. Os marinheiros revoltaram-se e abandonaram-me nesta ilha deserta em que só há macacos e bananas.
     Cego a olhar o mar, esperando que passe um navio que me regresse à Pátria.

António Madeira
[Branquinho da Fonseca]

sábado, 23 de julho de 2011

GEOGRAFIA

Quem sobe há-de descer e quem desce há-de subir. Não se sobe eternamente, nem se desce eternamente -- porque o mundo é redondo.

António Madeira
[Branquinho da Fonseca]

sábado, 9 de abril de 2011

LEN-GA-LEN-GA

Um sol que num céu se expande,
um sol pra que o céu é grande

O mundo a andar-lhe de roda,
o mundo com a gente toda.

Que infantil isto seria
se não fosse a astronomia!

Mas demonstra-se e acredito,
porque é simples e bonito.

Duvido, mas só o digo
mais que fechado comigo.

Tudo acredito e duvido;
tudo foi ganho e perdido.

Porque o tempo não começa
onde temos na cabeça.

Ah! que reinos haveria
antes desta dinastia!

A nossa imaginação
é o tormento dum condão.

Mas tudo isto já o disse
cher Monsieur De La Palisse,

E sem adormecimentos,
abandonos, desalentos...

Lenta, longa lengalenga...
lassa arenga... que molenga!...

Branquinho da Fonseca

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ROTEIRO DO NOVO-MUNDO

Com duas tábuas fiz
O barco onde navego
E onde sou tão feliz
Que nunca chego.

Meço a altura do sol, fico a sabê-la
Queimando a carne e a vista,
E à noite olho uma estrela
Que já talvez não exista.

Branquinho da Fonseca

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

COSMORAMA

Reina a lua nos pauis
onde o céu se vem mirar...
E eu tenho os olhos azuis
de sonhar a olhar o mar!...

Vai um navio a subir
entre as ondas... Ao chegar
lá ao céu, hei-de sorrir
alegrias de emigrar!...

Navios do fumo alvo
que faz as nuvens do céu,
dos vossos naufrágios salvo
sempre alguém que lá morreu!

Mas no céu, subitamente
naufragais, ides viajar
quantos mares fiquem na frente:
-- caminho de regressar...

Branquinho da Fonseca

domingo, 5 de dezembro de 2010

OCEÂNIAS

Ondas do mar me deitaram
sobre o calor das areias
que ao meu corpo se moldaram
pra aquecer as minhas veias.

E aquele corpo de escrava
dando-me força a vencia
pelo gozo que me dava
para o gozo que sofria.

A noite vinha a descer
e subia a maré-cheia...
Eu já tinha o meu poder:
fugi à praia, deixei-a.

Foi assim que regressei
das conquistas do mar bravo,
e ergui palácios de rei
sobre refúgios de escravo.

Branquinho da Fonseca

domingo, 3 de outubro de 2010

EPÍGRAFE DUM POEMA

Emigre longe... ao céu... ao mar...
mas sem dar a volta ao mundo!
-- Azul, num céu sem fim, a voar,
a minha vida é um astro que circundo...

Como donzelas à janela, assim
os meus dias de outra idade
os enamoro de mim...
-- pois quem está à janela é porque tem saudade.

Branquinho da Fonseca

domingo, 22 de agosto de 2010

PARÁBOLA

Um grito de ave corta o espaço
e o voo fere a flor do lago
que não desperta do sonho em que o sonha,
do sonho em que se adormeceu...
o lago escuro como um espelho sem aço
onde já se não olha o céu!...

Branquinho da Fonseca