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domingo, 16 de janeiro de 2011

BENDITO O FRUTO

Benza-os Deus:
Os frutos acres, as cerejas, as laranjas,
Se ao beijo da manhã o sol descobre;
Laranjas -- frutos de oiro à Apollinaire
E brincos de cerejas,
Coradas de pudor à António Nobre.

Bendito o fruto, a mulher.

Afonso Duarte

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

DESCONCERTANTE

Há frescura nos contos infantis,
Há perfumes no ar, rosas primaveris
Nos jardins.
Mas, na Rua, há arcos de palhaça
Por onde passam galgos, -- belos cães do pólo;
O amor e a desgraça,
Mãos pedintes, as mães, com filhinhos ao colo!

Mas, como bola dentro de assobio,
Ou presos na amurada dum navio,
Há olhos na cadeia -- olhando às grades!

-- Porque deixaram livre o manequim
E me prenderam a mim?

Cá fora, os lenços vão molhados de saudades.

Afonso Duarte

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

IDEIAS

Honra: Brio: Dignidade:
Onde estais? Quem vos preza?
-- Não posso viver pobre. A frialdade
Que me dá toda a pobreza!

Lembram-me bichos, carochas, centopeias,
Musgo, paredes húmidas, bolores,
Ao pensar na pobreza! -- Ideias.
E causam-me suores.

Afonso Duarte

domingo, 26 de setembro de 2010

REMOINHO

Nos ares nada está quedo,
Faz vento que mete medo,
Turva poeira arrepia.

Uiva o Diabo, assobia...

E o vento as coisas embrulha
Que nem palha na debulha.

Folhas, ao sopro daninho,
Gaivotam reviravoltas
Que nem velas de moinho.

Andam Diabos às soltas...

Ramos cá, ramos além,
Sofrem tratos de polé,
E mal um homem se tem
Firme e senhor de seu pé.

-- Ó passarinho, não fujas!
-- Poisa nos ramos mais altos!?
Até no bico das corujas
A Natureza dá saltos.

Afonso Duarte

sábado, 25 de setembro de 2010

EXÍLIO

O branco é gesso, é cal para as ossadas,
E eu não lhe encontro asseio de alegria;
Caiei por isso a rosa-alexandria
Minhas quatro paredes exiladas.

Afonso Duarte

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ONTEM

O antigo é a doença que eu mais detesto:
É viciar o que já foi virtude!
O tornar ao Passado é sempre um resto,
Ou pior, uma falta de saúde.

Afonso Duarte

sábado, 18 de setembro de 2010

HOJE

Podem encher-me os punhos de grilhetas
Ou pregar numa cruz a vida minha;
Não é canto propício de poetas
O velho medo que guarda a vinha.

Afonso Duarte

terça-feira, 14 de setembro de 2010

MAGIA DOS PIRILAMPOS

Cintilam na resteva os pirilampos:
-- Bailados de luz viva, logo morta.
Anda a crença a bater de porta em porta
Que há alminhas penadas pelos campos.

Luzem na floresta às vezes tantos
Que ao luzeiro macabro, além, da horta
Um frio gume de medo me recorta
-- O infantil medo que se esconde aos cantos.

E despedindo lume entre os silvedos,
Cruzam de agoiro a noite e de bruxedos,
Luzes de feiticeiras contradanças.

«Pirilampos debaixo da maquia»
Que vezes me embruxou vossa alquimia
Que magos! -- «para engano das crianças».

Afonso Duarte

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CANÇÃO DO NU

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.

Afonso Duarte

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

ROSAS E CANTIGAS

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? -- Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.

Afonso Duarte