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quinta-feira, 9 de junho de 2011

NATUREZA-MORTA COM LOUVADEUS

Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
-- que maculava --
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

Fiama Hasse Pais Brandão

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ó túmulo, ó vagas, chamava afastada
do mar e da morte a minha frase.
Comparei-a a mais uma voz
no deserto, que clamava neguei-lhe:
estava somente na margem
da distância, denominava de longe
onda que me devora
o nome que me esvai, chamei gesta
ao gemido, dei então ao copista
a cor da opala do mar,
morri em efígie na terra, ao mar dei
a loquacidade de quem morre.

Fiama Hasse Pais Brandão

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

DO PESADELO I

De quinta para quinta,
os cães cantam
a madrugada de glória,
em que o Sol negro
floresce de nuvens negras.
Indo por atalhos sem sombra,
ouvi-os entoar
o canto da insónia.

Fiama Hasse Pais Brandão

sábado, 28 de agosto de 2010

ORGANISTA

Nas resenhas da penumbra e da bruma, em alguns poemas,
houve a aproximação da morte e do júbilo.
O soprano jubilara, na arte sacra, enquanto ao órgão a personagem
desenha uma figura negra. Os emblemas mortais,
foice e gadanha, representam.
O desconhecido ou alguém configura o homem,
ecce, não cógnito, em figura. Dedilha as teclas,
persigna-te perante o teu sono. Delimita o tempo
do êxtase, o tempo da subsistência, o tempo da configuração.

Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

DO AMOR I

A névoa disse à árvore:
tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe
ser, figura.

Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

DO AMOR II

Ver o cortejo de cedros
e acreditar que é o cenário.
Depois estender a mão
através da longa perspectiva
oblíqua e poder palpar,
na pele, que também os cedros
têm corpos húmidos, saliva,
à espera do Amor.

Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

DA COSTA DE CASCAIS

Aqui, na orla do mar, as cruzes
são sinais de pescadores perdidos
no fundo, mortos, quando buscam
o sal da vida. Em vez de a sua força
fazer ceder a vaga sob o anzol,
é a força do mar ou a paixão da vida
-- arquejante e morta --
que os puxa para um purgatório
de água revolta e de limos.

Fiama Hasse Pais Brandão

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DE UMA RUA CITADINA

Folhas secas de plátanos
cobrem esta rua. Só assim
me é possível aceitar o caminho
entre as paredes e as casas.

Pisando o pavimento de folhas,
estou salva dos calafrios do medo,
entre janelas que solução e se calam
e portas que aprisionam os corpos.

Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

DA FERIDA

Regresso, depois da litania,
à contemplação sem voz.
A memória da música é
amarga, quando estou só.
Os quartetos de Beethoven
arrancam-me uma parte
do corpo em substância.
Ferida, terei de ir ainda
à cidade dia a dia.

Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, 3 de agosto de 2010

PERGUNTAI AO MURO

Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?

Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 8 de julho de 2010

CAMPO DE REFUGIADOS

A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?

Fiama Hasse Pais Brandão

domingo, 24 de agosto de 2008

DOS PINHAIS

Ondulando, os pinhais
quiseram ser o mar.
Murmurando, quiseram ser
o vento. Mas somente
no meu ouvido eram vento,
nos meus olhos, mar.

E hoje, ali na encosta,
pinhais bordejam
o mar, sustêm o vento.


Fiama Hasse Pais Brandão
s#3

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

DA ÁRVORE, NUMA RUA DE LISBOA

Esta árvore só, insana,
chamou a si todos os pássaros
da rua. E aceita, assim,
mil olhos que, no crepúsculo
da tarde, se fecham,
mil olhos, abertos
no crepúsculo da manhã.


Av. da República, 1996
Fiama Hasse Pais Brandão
s#2