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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olha essas flores. São, assim
Regadas pela dádiva da chuva,
Como que estrelas num céu de jardim
Devagar tombando uma a uma.

Furtivamente querendo escutar
Dir-se-ia que um génio de espuma
Procurou saber o seu segredo
E se desfolharam para o castigar.
E eis que a mão da brisa em seu enredo
Sobre o inquieto dorso do arroio
Caprichou em bolhinhas de enfeitar.

Ibn Al-A'lam As-Santamari

(Adalberto Alves)

terça-feira, 10 de maio de 2011

A ALCACHOFRA

Filha das águas e da terra
Para quem lhe almeja os dons
É corpo numa veste de recusa.
E na sua beleza obstinada
Bem no cimo lá da haste
Lembra uma jovem cristã
Que cota de espinhos usa.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 31 de março de 2011

ODE À FLOR DE AMEIXIEIRA

O vento e a chuva apressam-se a afugentar a partida da Primavera,
Os flocos de neve, esvoaçando, chamam por ela,
Para lhe dar as boas-vindas.
As altas montanhas estão cobertas de um manto de gelo,
Mas a linda ameixieira continua ainda em flor.
Linda sim, apesar de incompatível com a Primavera,
Ela mal pressente a sua volta
E espera que as flores nos montes floresçam todas
Para sorrir no meio delas.

Mao Tsé Tung

(José de Freitas)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ADAGIO

As folhas d'oiro, uma a uma,
Vão os plátanos despindo;
Ouço-as na álea caindo
Numa cadência de espuma...

Mais uma, negra, se abate,
Como bacante já lassa:
Rolando quase me bate
Num agoiro de desgraça.

Erguem-se agora ligeiras,
Lá partem, rentes do chão,
Todas juntas em fileiras,
Numa brusca emigração.

Sobre as áleas alagadas
Parecem almas sem nome
Que leva pra além dum rio
Caronte de mãos geladas...

Dezembro abre com fome
A goela de vazio...

Alexandre d'Aragão

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DUELO

Ao desobediente sorriso da figueira
o gato mostrou melancolia às riscas.

Luís Serra

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

DA TERRA

4

...era a minha sementeira
se eu tivesse a mesma sina
que aproveita a goiabeira

de semente pequenina
começou por ser verdinha
mas depois se avermelhou

depois
a passarada
chilreando à liberdade descuidada
leva no bico a goiaba
que a goiabeira gerou

Manuel Rui

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

POEMA DO SEMEADOR

Áspera é a terra, o esforço não tem prémio,
porém, à sombra do pomar -- rubro pomar! -- dos pêssegos do sol
em ti eu vejo, ó torso
de haste, o lírio nunca ausente.

Nenhuma flor, é certo, aponta em meu caminho,
mas desde que teus seios desabrocham na aridez,
em pensamento ressuscito a graça de uma vide
ou faço resplender, à luz do ocaso,
o rosto em fogo das romãs.

Áspera é a terra:
porém quando te despes, calmo trevo,
contaminados pelo aroma de jasmins sem consistência
ergue-se no ar
um canto nupcial de pólens tontos;
e ao embalo dos astros renascendo,
eu semeador,
confiante no futuro,
lavro meu campo ensagüentado de papoulas
com touros cor de mar ou potros como luas.

Péricles Eugênio da Silva Ramos

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PARA A FEIRA DO LIVRO

Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que vento em folha de livro.
Todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania varrendo o podre a zero.

Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anónimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.

João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

LA CIGALE

L'air est si chaud que la cigale,
La pauvre cigale frugale
Qui se régale des chansons,
Ne fait plus entendre les sons
De sa chansonette inégale;
Et, rêvant qu'elle agite encor
Ses petits tambourins de fée,
Sur l'écorce des pins, chaufée,
Où pleure une résine d'or,
Ivre de soleil, elle dort.

Paul Arène

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

MONÓLOGO DA OLIVEIRA

Sobrevivo com uma pinga de água.
Um olhar de quem passa dá e sobra

muitos meses, um sorriso me basta
para reverdecer por longos anos

-- a minha copa foi feita de sonho
e de coisas exactas e tão negras

como pequeno bago de azeitona.
Sinais minúsculos e trespassados

de luz na cerração densa da morte.
Vi romanos, e moiros, e judeus:

o par de mansos olhos do Cordeiro
no meu tronco perdura até ao fim.

José António Almeida

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois olhos por onde
O senhor olha infinitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio

Ruy Belo

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo ainda fiquei olhando

A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,

Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então

Sumir-se em meio àquele sobressalto
Depois de muito sacudida no alto
E de muito arrastada pelo chão...

Dante Milano

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

ÁFRICA

V

Reflectiu o arco-íris
as suas tonalidades múltiplas
sobre as pétalas virginais;
do fundo da terra
subiu até elas o perfume quente
das essências.

E logo foi rubra e ardente
a rosa tropical,
pálida a magnólia,
solene o cravo.

Nelas buscaram cor
as mariposas
e encheram as suas taças
os besouros;
nelas o Poeta e a abelha
encontraram a mais requintada doçura.

Brancas, verdes ou amarelas,
amo-as a todas
na sua pluralidade colorida,
na sua fragilidade perfumada.

Azuis, vermelhas ou roxas,
amo-as a todas
e peço-as
para os meus mortos
passados e futuros,
mortos da terra e do mar,
da escravidão e da liberdade,
peço flores para as novas bandeiras de África
que eu vejo desabrocharem no horizonte.

Manuel Lima

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RIMANCE (na forma da lhaneza popular)

Debaixo daquela árvore
'stá um menino a brincar,
'steja sombra esteja sol,
nunca deixa de folgar.

E a árvore foi crescendo
foi crescendo para o ar...
e o menino foi crescendo
já não sabia folgar.

Debaixo daquela árvore
com ELA está a falar.
A árvore já é grande
e o menino vai casar.

Um dia lá muito ao longe
'stava o menino a pensar,
e quedou-se mudo e triste
por já não saber folgar.

Já passaram muitos anos
por cima do seu pensar.
Debaixo daquela árvore
'stá um velhinho a chorar...

-- Porque choras tu velhinho?
o que te faz soluçar?
-- Se eu estou já tão velhinho
porque não hei-de chorar?

Quando eu era pequenino
vinha para aqui folgar,
agora que sou velhinho
venho para aqui chorar.

Uma voz se ouviu então
que vinha ao alto do ar:
-- Só és velho e vais morrer
por ter 'squecido o folgar...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

À sombra da linda árvore
uma cruz foram plantar,
com um letreiro que diz
cousas que fazem cismar:

O SABER A VIDA, MATA.
O NÃO-SABER, FAZ CRIAR.
A MORTE SÓ CRIA A VIDA
P'RA MORRER DEPOIS DE AMAR.

Alberto de Hutra

sábado, 4 de dezembro de 2010

THIS BREAD I BREAK

This bread I break was once the oat,
This wine upon a foreign tree
Plunged in its fruit;
Man in the day or wind at night
Laid the crops low, broke the grape's joy.

Once in this wine the summer blood
Knocked in the flesh that decked the vine,
Once in this bread
The oat was merry in the wind;
Man broke the sun, pulled the wind down.

This flesh you break, this blood you let
Make desolation in the vein,
Were oat and grape
Born of the sensual root and sap;
My wine you drink, my bread you snap.

Dylan Thomas

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fica o passar do tempo na paisagem
-- fica numa folha que passa
e seca
tomba...

Fica numa sombra
a completar a imagem
da eternidade.

António de Navarro

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

BUGANVÍLIA

Branca a buganvília explode
no odiado muro em frente

à volta a vida berra crente
e o negro sangue estanca

vermelha a buganvília
rompe o muro da frente

José Luandino Vieira

sábado, 27 de novembro de 2010

THE SNOWMAN

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
On the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Wich is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

Wallace Stevens

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AS ROSAS

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ali onde as rosas se doavam
A quem, pousando a mão, se debruçasse,
Ficou uma saudade sem história
Nem dor... Só de alegria
O sentimento pleno a quem ousasse
Colhê-las na memória.

Ninguém perceberá morta a distância,
Nem o aroma breve que evolavam.

Só a saudade de uma luz perfeita,
Descendo na minha alma a minha vida,
Descobre, junto a uma pétala desfeita,
O teu olhar puríssimo.

Ruy Cinatti