Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Lopes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Lopes. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de maio de 2011

NEM NAVIO

Nem navio nem sombra de nuvem no mar
para um adeus de largada...

             Esta saudade infinita
             é uma ilusão que se disfarça.

Grita
que a dor passa!

-- Saudade é voz ancorada...

Manuel Lopes

quarta-feira, 18 de maio de 2011

RUÍNA

Mar parado na tarde incerta.
No horizonte, uma vela que se perde
atrás da rocha com cara de gente.
Voz sem boca
canta morna monocordicamente
quando o Sol diz adeus no raio verde.

A tarde é morta
na praia deserta.
A voz rouca.
O céu é sangue ou brasa.

Mão decepada acena ao sol ausente
inútil adeus pela porta
que ficou aberta
num muro que já foi casa...

Manuel Lopes

terça-feira, 3 de maio de 2011

ENCRUZILHADA

Que disse a Esfinge
aos homens mestiços de cara chupada?

Esta encruzilhada
de caminhos e de raças
onde vai ter?
Por que virgens paragens se prolonga?

Aonde vão nas suas andanças
os homens mestiços de cara chupada?

Que significa para eles o amanhecer?

               Ilhas de heroísmos e derrotas e esperanças
               que a História não escreve
               onde a hora é longa
               e o dia breve...

Manuel Lopes

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CRIOULO

Há em ti a chama que arde com inquietação
e o lume íntimo, escondido, dos restolhos,
-- que é o calor que tem mais duração.
A terra onde nasceste deu-te a coragem e a resignação.
Deu-te a fome nas estiagens dolorosas.
Deu-te a dor para que nela
sofrendo, fosses mais humano.
Deu-te a provar da sua taça o agridoce da compreensão,
e a humildade que nasce do desengano...
E deu-te esta esperança desenganada
em cada um dos dias que virão
e esta alegria guardada
para a manhã esperada
em vão...

Manuel Lopes

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A GARRAFA

Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
          -- se foi criança
          ou o ladrão
          ou filósofo
          quem libertou a sua mensagem
          e a leu para si ou para os outros?

Que se destrua contra os recifes
ou role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja por olhos humanos
que importa?

               ...se só de atirá-las às ondas vagabundas
          libertei meu destino
          da sua prisão?...

Manuel Lopes

quinta-feira, 24 de março de 2011

NAUFRÁGIO

Ai a tristeza do vento
chorando...
Ai as nuvens indo à solta
em louca corrida
medrosas, fugindo à mão estendida...
Ai a solidão dos montes
despidos, à nossa volta
onde a vida aos poucos se consome
-- seios nus ensaguentados
onde as raízes
morrem de fome...

... E nos rostos ensombrados
rondam saudades: -- países
navegam velas: -- distâncias...
Gestos parados
caladas ânsias
gritos sem voz...

Dorme o Nosso Senhor Só
dentro de cada um de nós,
envolvido pelo pó
que o vento remexeu e levantou.

Ai este Atlântico triste
que nos deu a nostalgia
dum mundo que só existe
no sonho que ele provocou...

Manuel Lopes

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CAIS

Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é de mais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.

Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
Mundo pequeno para quem ficou...

Mundo pequeno para quem ficou...

Manuel Lopes

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

NOCTURNOS (PORTO GRANDE)

Para Augusto Casimiro
I
Luzes , raras, da baía
saltitam na água macia
-- enguias de ouro a brincar
numa alcatifa negra de veludo --
e multiplicam-se no mar,
no mar sonâmbulo e mudo.
Perpassam gritos
como os que se calam dentro da gente...
Fantasmas negros de lanchas
enchem o porto de manchas,
sacodem mastros aflitos
silenciosamente...
Manuel Lopes