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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A BILHA

Bilha: forma que se casa
Com o meu coração,
A dar-me, simples, a asa,
Como um menino a mão!

Bilha que serve, na mesa,
E espera, sobre a toalha,
Que a gente sinta a beleza
De quem trabalha...

Bilha: donzela que dançou,
Dançou tanto de roda,
E na "pose" que me agrada,
De repente ficou!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Poesias Completas

autor: Alexandre O'Neill (Lisboa, 19.XII.1924 - 21.VIII.1986)
título: Poesias Completas
subtítulo: 1951 / 1981
prefácio: Clara Rocha
colecção: «Biblioteca de Autores Portugueses»
edição: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
local: Lisboa
ano: 1982
págs.: 504
dimensões: 24x15x2,7 cm. (brochado)
capa: grafismo de Armando Alves
impressão: Gráfica Maiadouro (Maia)
tiragem: 3000

domingo, 31 de outubro de 2010

DEIXA

À tua mãe o marfim crucificado
ao teu pai o vício mais ronceiro
e a quem quiser
os lindos pentes da virtude

Frases célebres
todas
e não esqueças aquela
que diz assim
                              PAIS
                          que fazeis?
                  OS VOSSOS FILHOS
                       não são tostões
                GASTAI-OS DEPRESSA!

Deixa também a ilusão de que te amaram
àquelas duas que ali não vês

Só no tempo em que os suicidas
como os animais falavam
valia a pena desiludir

Deixa ainda
o que a álgebra mais secreta
decidiu a teu favor

A sombra que projectaste
talvez alguém a resolva
num diamante cruel

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

POEMA CONFIADO À MEMÓRIA DE NORA MITRANI

Se eu pudesse dizer-te: -- Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar o mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: -- Vê se adivinhas...
      Então um fértil jogo amor seria.
      Não este descerrar a mão vazia!

Alexandre O'Neill

domingo, 16 de agosto de 2009

A UMA OLIVEIRA

Muito antes de Os Lusíadas diz-se que já aqui estavas.

Pré-camoniana,
sazão a sazão,
foste varejada séculos a fio.

O pinho viajou.
tu ficaste.

Ao som bárbaro de um rádio de pilhas,
desdobram toalhas
na tua sombra rala.

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 3 de abril de 2009

GATO

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A NOITE-VIÚVA

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalha
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia

Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.

Alexandre O'Neill