Mostrar mensagens com a etiqueta Adalberto Alves-tradutor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Adalberto Alves-tradutor. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A vida de tudo quanto vive
          é penhor do Nada.
O mundo que agora une
          é o que amanhã apartará.
A vida dá-nos o Hoje para nos aproximar
          e a Eternidade para a separação.
Possui acaso o rei o mistério da morte?
O seu poder contraria o transe do destino?
Não é isso que vejo!
A morte desfaz o que a união congrega:
Ó colinas vestidas de evanescentes mantos
Ó vida aniquiladas com brutal furor
Ó almas atingidas de insanável mal,
Não sabeis que suas mãos profanam os haréns,
Os mais nobres príncipes e as suas damas?
Que ela é o mal que abate o monarca
Com golpe fero que atrai a compaixão?
Que contra ela os elementos não são armas
Nem as lágrimas lhe dão sequer remédio?
Logro contra ela é o recurso dos suspiros!
Logro contra ela é o socorro do pranto!
Como pôr fim a um mal com outro mal?
Como tratar a dor com outra dor?

Ibn Darraj al-Qastalli

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tivemos,
Em vez de uma longa vida de doçura
A travessia de vales e montes lamacentos;
Em vez de noites breves sob os véus
O temor da viagem no seio de infindável treva;
Em vez de água límpida sob sombras
O fogo das entranhas queimadas pela sede;
Em vez do perfume errante das flores
O hálito esbraseado do meio-dia;
Em vez da intimidade entre ama e amiga
A rota noctura cercada de lobos e de génios;
Em vez do espectáculo dum rosto gracioso
Desgraças suportadas com nobre constância.

Ibn Darraj Al-Qastalli

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olha essas flores. São, assim
Regadas pela dádiva da chuva,
Como que estrelas num céu de jardim
Devagar tombando uma a uma.

Furtivamente querendo escutar
Dir-se-ia que um génio de espuma
Procurou saber o seu segredo
E se desfolharam para o castigar.
E eis que a mão da brisa em seu enredo
Sobre o inquieto dorso do arroio
Caprichou em bolhinhas de enfeitar.

Ibn Al-A'lam As-Santamari

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sou Ibn 'Ammar: a minha glória
Não há quem a possa ignorar
A não ser tolos, dos quais não reza a história,
E que nem astros conseguem enxergar.

Se o meu Tempo me despreza
Não é isso motivo para espanto
Notas em livros é o que mais se preza
E nas margens se escrevem, no entanto.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eis nuvens...
Que espessas são!
Parecem formadas,
Deste lado do azul do céu,
Do fumo que ao arder
Madeira verde lhes deu.

Vem chuva fina,
        Poalha de prata
        A polvilhar terra ambarina.
Mas se um instante
O sol fica a brilhar
        É como escrava provocante
        Que se mostra a quem a vai comprar.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Minha alma quer-te, ainda que em tortura,
E sigo-te alegre na ânsia de procura.
Que estranho, ser defesa a nossa ligação,
Se os desejos ambos concordaram!
Que quereria mais o coração
Quando amargurado te buscou em vão
E meus olhos te viram e amaram?
Como desejo que quem tem poder
Sobre ti em nosso encontro não esteja!
Só assim a minha sede se vai beber
Em doce fonte se teus lábios beija.

Ibn 'Ammar
(Adalberto Alves)

terça-feira, 10 de maio de 2011

A ALCACHOFRA

Filha das águas e da terra
Para quem lhe almeja os dons
É corpo numa veste de recusa.
E na sua beleza obstinada
Bem no cimo lá da haste
Lembra uma jovem cristã
Que cota de espinhos usa.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

terça-feira, 19 de abril de 2011

MAÇÃS E PÊRAS

Aceitai,
     Como rostos amáveis que se vos mostrassem
     Ou tímidos seios palpitando vossas mãos
estas maçãs: Pérolas entre nós espalhadas
Como botões em seu ramo postos.
Tomai-as e ofertai-as aos presentes
Como vinho preso de surpresa
Pelo gelo de inverno.
Eis também pêras para duplicar a minha dádiva.
E apenas se me oferece dizer:
São tão-somente brancas faces
Onde pousaram profundos olhos negros.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos seus tormentos.
Porém, não busqueis poder no amor...
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

terça-feira, 29 de março de 2011

Ó noite inolvidável
Feita abraço
Que nos misturou inteiramente
Até que o dorso da treva se vergou
E na face da idade embranqueceu.
Foi então
     Que o manto fino da brisa
     Tapou teus ombros, ó Noite,
     Com a delicadeza do orvalho.

Ibn 'Abdun

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Regaram-no as chuvas da abastança:
E saudosas frases me vêm à lembrança.

Cumes cobertos de moitas floridas
De bordados mantos sendas não esquecidas.

Sim, como esquecer-me das horas passadas
No tropel louco de ingénuas cavalgadas?

Ai como era doce esse meu folguedo,
Passarinho à toa esvoaçando ledo.

Dias tão felizes, bordados em flor,
Vento em minhas vestes murmurando amor.

Ibn 'Abdun

(Adalberto Alves)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Desobedeceste-lhe,
     Sabendo o quanto és contigente.
Que farias,
     Se te soubesses necessário?
Ao morreres esperas, talvez, algum refúgio
Que do Éden te exclua, ou do Fogo.
será que contas que alguém
Te possa livrar de Deus?

Ibn As-Sid

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Às portas do céu
Um demo espiava.
Uma estrela se deu
Feita sacrifício.
Sobre ele lançou
Um rastro brilhante
De prata e de ouro,
Como um cavaleiro
Que ao galopar
O seu turbante
Viu se desatar
E para trás deixou
Um véu a pairar.

Ibn Sara

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Um áspero deserto me encerra no seu peito
Do qual sou sua pena e palpitar.
Sob a veste da noite por mim arde uma brasa
E luz formosa a túnica do amanhecer.
Dou-me às trevas: cálido vento
Que entre pestanas de nuvens vai passando.
A noite, grandes e negras pupilas,
Cerra-me os olhos
E sorri-me a aurora com soberbos dentes.

Ibn Al-Murahhal 

(Adalberto Alves)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cruzei-me com quem me dava
A languidez do amor.
A saudação lhe dei pela palavra.
Porque a afeição se acabasse
Não sentia o seu calor
E altaneiro me evitava,
Mas deixou-me que o beijasse:
Foi como daquela vez
Que avistando a claridade,
Só querendo lume, Moisés
Falou com a divindade.

Ibn Al-Milh

(Adalberto Alves)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A CARTA

Benvinda a carta que chegando mostra
O seu rosto lindo, todo felicidade,
Veste-a a túnica de que mais se gosta
Ostentando a festa da fidelidade.

Não páro de olhá-la, tão desvanecido,
Minha mão lhe toca com veneração
Dou-lhe o meu afago depois de a ter lido
Ponho nela o beijo do meu coração.

Ibn Habib

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Homem é filho do nada
E do abandono a presa
Seu coração folha seca
Pelos ventos fustigada.

Ibn Dawud al-Marwani

(Adalberto Alves)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Nunca evitei o desafio
Na frente de quem seja campeão
Mas hoje só tenho por contrário
A beleza que me mata com requebros
Com beijos doces e abraços,
Que são a sua saudação,
E cadeias
Que me apertam como laços.
Minha vida é dada às armas
E a couraça eu só tiro
Com o peito a palpitar
Se a beleza oculta em véus
Eu pressinto em seu arfar.

Ibn Darraj al-Qastalli

(Adalberto Alves)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Vem daí, deixa lá esse torpor,
Que o que agora conta e tem valor
É a amada, linda como a lua,
E teres sempre cheia a taça tua!
Não te embarace tanto nevoeiro
Que sobre jardim e vinho vai pairando.
Estares presente é o dever primeiro
E logo o jardim se irá mostrando.

Ibn Bassam

(Adalberto Alves)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Desprezei toda a paixão
Era bem moço eu ainda então.
O Tempo me açoitou
E só cãs e velhice me deixou.

Depois, já fora de estação,
Entreguei-me nos braços da paixão.

Ah nascera eu na decrepitude
P'ra regressar depois à juventude!

Ibn 'Ayyas al-Yaburi

(Adalberto Alves)