autor: Sebastião da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, 10.IV.1924 - Lisboa, 7.II.1952)
título: Pelo Sonho É que Vamos
prefácio: Ruy Belo
edição: 3.ª
colecção: «Poesia»
editora: Edições Ática
local: Lisboa
ano: 1979
págs.: 77
formato: 20x14x0,6 cm. (brochado)
impressão: Tipografia Macário, Lisboa
capa: desenho de Almada Negreiros
obs.: extratextos com retrato do Autor e fac-símiles de alguns poemas
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domingo, 17 de abril de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
VIESSES TU POESIA...
Viesses tu, Poesia,
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...
Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?
Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
-- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo foram graça, aparição, presença,
sinal...
(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?)
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
morta à primeira hora.)
Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...
Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?
Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
-- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo foram graça, aparição, presença,
sinal...
(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?)
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
morta à primeira hora.)
Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...
Sebastião da Gama
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
SINAL
Quanto amor me tens,
com amor to pago.
-- Trago-te no dedo,
num anel que trago.
Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o meu destino.
Este anel me basta
pra bater-te à porta.
Truz! truz! truz! na rua
como o frio corta!
Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.
(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
pra que o frio me passe;
Já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo Esposa,
peito contra peito.
Como tudo é simples,
como é tudo imenso!
Ó mistério enorme,
de um anel suspenso!
E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.
com amor to pago.
-- Trago-te no dedo,
num anel que trago.
Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o meu destino.
Este anel me basta
pra bater-te à porta.
Truz! truz! truz! na rua
como o frio corta!
Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.
(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
pra que o frio me passe;
Já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo Esposa,
peito contra peito.
Como tudo é simples,
como é tudo imenso!
Ó mistério enorme,
de um anel suspenso!
E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.
Sebastião da Gama
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
DIÁRIO DE BORDO
Cá estou eu a julgar que vou remando...
Cá vai Deus a remar
e eu a ser um remo com que Deus
rasga caminhos pelo Mar...
Cá vai Deus a remar
e eu a ser um remo com que Deus
rasga caminhos pelo Mar...
Sebastião da Gama
terça-feira, 21 de setembro de 2010
JANELAS DE ESTREMOZ
Janela fechada,
cortina corrida...
Nem flor a perfuma,
nem moça a enfeita.
--: Ninguém se lhe assoma.
Janela tão triste,
nem ao Sol aberta...
Em toda a cidade
se repete a história
mil vezes; mil vezes,
se olhares a janela
ou desta ou daquela
casinha caiada,
a vês divorciada
do Sol e de tudo
que graça lhe dera.
Há vinte janelas
na casa da esquina?
-- Na rua de cá
dez estão fechadas;
outras dez, fechadas
na rua de lá.
Ah! tão retraídas!
Ah! tão agressivas!
Que pessoas vivas
foi que as condenaram?
Ó janelas mudas,
pobres prisioneiras!,
que pessoas vivas,
por que expiação,
vivem na prisão
em que vos meteram?
-- sem sol que as aquente...
sem flor que as alegre...
Janela cerrada,
cortina descida...
Mocinha escondida
por trás da janela
-- quanto mais não vale
a rosa encarnada
que a rosa amarela!...
Sebastião da Gama
quinta-feira, 22 de julho de 2010
CREPUSCULAR
A Morta cheira a rosas. As suas mãos ficaram,
brancas, sobre a cidade -- pombas brancas dormindo...
A voz do Rei Dinis é um sussurro ao fundo.
Choro? Reza? Descante? Louvor das que o amaram?
Recorta-se no escuro, geométrica, a cidade.
Cor das mãos da Rainha. Serena como elas.
Aparecem as luzes primeiro que as estrelas.
Um vento manso traz o aroma das herdades.
E eis que a cidade toda é um presépio.
Ouve-se a tropeada dos camelos,
o riso dos pastores...
Quem está nascendo? Que deus?, que príncipe?, que poeta?
Mãos da Rainha Santa, dai-lhe abrigo:
Não vá ser um ladrão. Não vá ser um mendigo.
Sebastião da Gama
sábado, 2 de janeiro de 2010
PEQUENO POEMA
Quando eu nasci,
ficou tudo com estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
ficou tudo com estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Sebastião da Gama
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