Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Jorge Fabião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Jorge Fabião. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de julho de 2011

CADERNO

As linhas das mãos
prolongam os veios (dos campos).
Alguém recolhe as últimas estrelas
(no outro lado do coração).
Nenhum agravo ou ferida.
Apenas um caderno aberto
ante o assombro da escrita.

Fernando Jorge Fabião

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Às vezes apetece
um pequeno pátio      um sibilar de vento
e aroma de mar
apetece um sulco de giz
no rosto do poema
um laço
uma ponte entre o clamor do vento
e a haste do mundo

às vezes apetece
um mapa
um gesto camponês
lavrando a solidão incendiando a terra

apetece um ofício puro
uma estrela ardida no lugar do coração.

Fernando Jorge Fabião

domingo, 30 de janeiro de 2011

Principio a escrever
e letra a letra construo uma casa
leve e obscura como um poema

Escrevo como quem da mágoa
se despede e é outra cor

O espanto inunda as mãos (aves sem peso)
e uma canção antiga
nasce no interior das sílabas

Um saber precário consome a minha voz
Um pedaço do mar
Um véu rasgado

Olho devagar os rostos
(luz matinal)
e à volta dos lugares
desenho um arco de orvalho e mel.

Fernando Jorge Fabião

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

TÍLIAS

Recolheu os manuscritos.
Contou as tílias, a promessa
das cores. Emudeceu.
Nada alterou a sombra amável
nem a dignidade do olhar.
O ramo da escrita: luz surda
respiração
puro tacto.
Louvor mudo.

Fernando Jorge Fabião

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Se um dia a sede
de uns lábios desarmados
ou o veneno alastrar

e as crianças, amando o pão,
respirarem

Talvez o declinar da sombra
na face amada
ou um gesto
desenhado contra o vento

ensinem

o esquecido ofício
da alegria.

Fernando Jorge Fabião

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu poderia dar o passo
que o súbito ar
separa

e arder
no círculo imenso da água.

Eu poderia
dar à voz
o uso próprio de um verso,

partilhar o que me falta
no país difícil
de um adeus.

Fernando Jorge Fabião

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

quando tudo é outra coisa
peixe ou nuvem
quando tudo é fulgor
rebentação do verde nos teus olhos
quando a alegria contamina a pele
e a casa é um navio transparente
e numa sílaba
ouso imaginar-te enternecendo as aves

é que levo ao poema
a brancura matinal da infância
ou, quem sabe
o nome exacto de Deus.

Fernando Jorge Fabião

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Não sei de outra medida
de outra minúcia de outro olhar

Não sei de outra voz
reclinada na linguagem do ar
ou na cegueira de um astro

Não sei de outra escassez
ou sabor
sem a cal de um ombro. Não sei.

Fernando Jorge Fabião

sábado, 31 de julho de 2010

Nascente da Sede

autor: Fernando Jorge Fabião
título: Nascente da Sede
edição: 1.ª
colecção: «Imagem do Corpo» #72
editora: Ulmeiro
local: Lisboa
ano: 2000
capa: César Fidalgo
págs.: 98
dimensões: 20,5x14,7x0,6 (brochado)
tipografia: Garrido & Lino (Alpiarça)
obs.: Prémio Revelação Ary dos Santos, 1999 (Câmara Municipal de Grândola); dedicatória do Autor

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Se voltares o rosto
(devagar)
alumias as folhas nuas
da noite.

Fernando Jorge Fabião

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Há casas profundas
onde resplandecem linhos desfeitos
passos de mulher
casas cheias de doçura
orações esquecidas
lâmpadas ardendo como conchas
casas com colinas de água por dentro
e contos de fadas
e anjos perplexos na caligrafia dos quartos
há casas atravessadas
por um dom luminoso e feroz
por um júbilo de rosas
e portas por abrir

Pedras Salgadas
21 de Agosto de 1999
Fernando Jorge Fabião

domingo, 3 de agosto de 2008

Para a avó Ângela


Eras a primeira a levantar
acendias o lume
moías o café
abrias as portadas

Novembro era o teu mês
e nas íntimas orações
procuravas o ouro iluminado
o refúgio onde as brasas ardiam junto ao coração

Os netos (breves relâmpagos)
atravessavam o lameiro
e pensativos adormeciam próximos das aves

Na varanda anunciavas a sabedoria do mundo
os ninhos, as cerejas, o pão pobre das palavras.
Fernando Jorge Fabião
n#1