domingo, 6 de março de 2016
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
domingo, 25 de setembro de 2011
O SOL É UM COMETA
Um astro rápido atravessa a água
do céu de maio não como um destroço
das primaveras que o passado esmaga
é um leão que treme na luz de ouro
O sol é um cometa quando o vejo
com os músculos de ouro do meio-dia
dilacerar a água que o protege
tal como o corpo dilacera a vida
do céu de maio não como um destroço
das primaveras que o passado esmaga
é um leão que treme na luz de ouro
O sol é um cometa quando o vejo
com os músculos de ouro do meio-dia
dilacerar a água que o protege
tal como o corpo dilacera a vida
Gastão Cruz
sábado, 24 de setembro de 2011
EVA
A culpa toda
me reveste
e eu nua.
Ouvi o que
a serpente
sussurrava
e caí.
Com Adão.
Nos desterrou
o anjo.
Era o conhecimento
de um pudor
ou soluço.
O que pode
a dor,
se nenhum traço
nos julga?
Com medo,
escondo a face.
E opaco, nulo
o riso. Tudo
é desconhecido
fora do paraíso.
me reveste
e eu nua.
Ouvi o que
a serpente
sussurrava
e caí.
Com Adão.
Nos desterrou
o anjo.
Era o conhecimento
de um pudor
ou soluço.
O que pode
a dor,
se nenhum traço
nos julga?
Com medo,
escondo a face.
E opaco, nulo
o riso. Tudo
é desconhecido
fora do paraíso.
Carlos Nejar
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
A vida de tudo quanto vive
é penhor do Nada.
O mundo que agora une
é o que amanhã apartará.
A vida dá-nos o Hoje para nos aproximar
e a Eternidade para a separação.
Possui acaso o rei o mistério da morte?
O seu poder contraria o transe do destino?
Não é isso que vejo!
A morte desfaz o que a união congrega:
Ó colinas vestidas de evanescentes mantos
Ó vida aniquiladas com brutal furor
Ó almas atingidas de insanável mal,
Não sabeis que suas mãos profanam os haréns,
Os mais nobres príncipes e as suas damas?
Que ela é o mal que abate o monarca
Com golpe fero que atrai a compaixão?
Que contra ela os elementos não são armas
Nem as lágrimas lhe dão sequer remédio?
Logro contra ela é o recurso dos suspiros!
Logro contra ela é o socorro do pranto!
Como pôr fim a um mal com outro mal?
Como tratar a dor com outra dor?
é penhor do Nada.
O mundo que agora une
é o que amanhã apartará.
A vida dá-nos o Hoje para nos aproximar
e a Eternidade para a separação.
Possui acaso o rei o mistério da morte?
O seu poder contraria o transe do destino?
Não é isso que vejo!
A morte desfaz o que a união congrega:
Ó colinas vestidas de evanescentes mantos
Ó vida aniquiladas com brutal furor
Ó almas atingidas de insanável mal,
Não sabeis que suas mãos profanam os haréns,
Os mais nobres príncipes e as suas damas?
Que ela é o mal que abate o monarca
Com golpe fero que atrai a compaixão?
Que contra ela os elementos não são armas
Nem as lágrimas lhe dão sequer remédio?
Logro contra ela é o recurso dos suspiros!
Logro contra ela é o socorro do pranto!
Como pôr fim a um mal com outro mal?
Como tratar a dor com outra dor?
Ibn Darraj al-Qastalli
(Adalberto Alves)
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Adalberto Alves-tradutor,
Ibn Darraj al-Qastalli
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
A poesia é o "real absoluto" mas em constante mutação, e por isso sempre haverá poesia que sempre se cumprirá fora dos muros e das luzes da cidade. É este o lugar dos poetas, cá fora. Os que se aproximam dos outros poderes ou perderam a inocência ou nada aprenderam com a experiência: já não são poetas.
Casimiro de Brito
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Casimiro de Brito
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
BARCOS DE PAPEL
Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.
Fazia de papel toda uma armada
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...
Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, tal como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais...
-- que os meus barquinhos, lá se foram eles!
foram-se embora e não voltaram mais!
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.
Fazia de papel toda uma armada
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...
Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, tal como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais...
-- que os meus barquinhos, lá se foram eles!
foram-se embora e não voltaram mais!
Guilherme de Almeida
terça-feira, 20 de setembro de 2011
O crítico tem alma de camelo:
frutas e flores, eis o que el' não come.
No florido jardim do doce néctar,
se não vê espinhos, morrerá de fome.
frutas e flores, eis o que el' não come.
No florido jardim do doce néctar,
se não vê espinhos, morrerá de fome.
poema sânscrito anónimo
(Jorge de Sena)
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Anónimo,
Jorge de Sena-tradutor
CANÇÃO DE SALABU
Nosso filho caçula
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Nosso filho já partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
-- Mamã ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Nosso filho já partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
-- Mamã ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé!
Mário Pinto de Andrade
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«do sangue»,
Mário Pinto de Andrade
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
En art, il n'y a que deux choses essentielles: l'instinct et le don.
Vlaminck
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Maurice de Vlaminck
Àqueles que sabem
e querem amar o
Futuro:
Foge o Presente, foge às mãos sequiosas
De cingi-lo, apertá-lo ao coração,
E as horas correm, tão vertiginosas,
Que mal as vemos, no seu turbilhão...
Umas dão sonho, noutras nascem rosas.
Sonhos e rosas -- porque nascerão?...
-- Como a volúpia incerta que tu gozas
Deixam saudades só, meu coração!
E é sempre esta saudade, esta agonia
De não viver a vida fugidia,
De ver fugir desejo, amor, verdade...
-- Mas o Futuro vela... E, fielmente,
Colhe as horas mais belas do Presente
E delas tece a nossa eternidade!
João de Barros
A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA
Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.
Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...
Bem haja a mão que te criou!
Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.
Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...
Bem haja a mão que te criou!
Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.
Luís Veiga Leitão
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Luís Veiga Leitão
domingo, 18 de setembro de 2011
PASSEI A VIDA...
Passei a vida a servir
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.
Os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio.
Meu mundo
meu inferno.
E ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
sem ter tido ao menos alma para morrer
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.
Os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio.
Meu mundo
meu inferno.
E ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
sem ter tido ao menos alma para morrer
1948
Agostinho Neto
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«do sangue»,
Agostinho Neto
O ESPÍRITO DOS PÁSSAROS
Os índios acreditam que o homem
é o espírito dos pássaros,
deslumbrante e volátil,
como uma nuvem de espuma,
um óleo santo, ou um fogo ritual.
Assim se cumpre o seu destino
de adoradores do trigo, da lava
e do sol, de fabricantes de setas
ardentes como um lume fatal.
Conspiram os pássaros contra
o espírito dos homens
que os tiraniza e fere de morte.
Dançam em torno das estações,
trabalhando pela fertilidade
das colheitas, migrantes e sequiosos.
é o espírito dos pássaros,
deslumbrante e volátil,
como uma nuvem de espuma,
um óleo santo, ou um fogo ritual.
Assim se cumpre o seu destino
de adoradores do trigo, da lava
e do sol, de fabricantes de setas
ardentes como um lume fatal.
Conspiram os pássaros contra
o espírito dos homens
que os tiraniza e fere de morte.
Dançam em torno das estações,
trabalhando pela fertilidade
das colheitas, migrantes e sequiosos.
José Jorge Letria
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«bichos»,
José Jorge Letria
sábado, 17 de setembro de 2011
CIDADE DE SEGREDOS
Quando a cidade escurece
e um toldo de noite a envolve,
o silêncio traz em si
os mais profundos lamentos,
o ruído de estertor dos que chegam ao fim,
os soluços de amor dos que agora começam,
os passos perdidos pelas ruas solitárias
de luz citrina nas janelas da espera.
É sempre o corpo o centro da madrugada.
Vou ver o meu filho que dorme serenamente
enquanto um motor de carro abranda
na hora do sono dos noctívagos e dos boémios.
Sento-me e contemplo ao longe a Basílica da Estrela
num diálogo de pedra secreto com os
últimos luzeiros, com o rumos da alvorada
e um toldo de noite a envolve,
o silêncio traz em si
os mais profundos lamentos,
o ruído de estertor dos que chegam ao fim,
os soluços de amor dos que agora começam,
os passos perdidos pelas ruas solitárias
de luz citrina nas janelas da espera.
É sempre o corpo o centro da madrugada.
Vou ver o meu filho que dorme serenamente
enquanto um motor de carro abranda
na hora do sono dos noctívagos e dos boémios.
Sento-me e contemplo ao longe a Basílica da Estrela
num diálogo de pedra secreto com os
últimos luzeiros, com o rumos da alvorada
João Candeias
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
-- Faze o bem e fecha os olhos:
Fecha-os, não olhes a quem. --
Não vejas o mal dos outros,
Vejam outros teu bem.
Fecha-os, não olhes a quem. --
Não vejas o mal dos outros,
Vejam outros teu bem.
António Correia de Oliveira
Etiquetas:
António Correia de Oliveira
ONDE?
Tão longe como estás, ó meu desejo,
Quando a noite gelada se avizinha,
Se tu és Dor, ao pé de mim te vejo...
Trajas um manto negro de rainha
E, silenciosa como a sombra, choras
Pousando sempre a tua mão na minha!
Vens de tão longe nas caladas horas!
Se tu és Pranto, esse leal amigo,
E no meus olhos que de noite moras...
Tens neste amargo peito um doce abrigo!
Se estás longe de mim e eu não te alcanço,
Não és pranto nem Dor! Mas, se és Descanso,
Onde te ocultas que não dou contigo?
Quando a noite gelada se avizinha,
Se tu és Dor, ao pé de mim te vejo...
Trajas um manto negro de rainha
E, silenciosa como a sombra, choras
Pousando sempre a tua mão na minha!
Vens de tão longe nas caladas horas!
Se tu és Pranto, esse leal amigo,
E no meus olhos que de noite moras...
Tens neste amargo peito um doce abrigo!
Se estás longe de mim e eu não te alcanço,
Não és pranto nem Dor! Mas, se és Descanso,
Onde te ocultas que não dou contigo?
João Saraiva
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
AQUELE QUE PASSA
O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figuras deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de
[amor,
E em ti não há membro ou ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de
[amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando em ti, jão não bela, em ti já não jovem, o aromo precioso do deus:
Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figuras deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de
[amor,
E em ti não há membro ou ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de
[amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando em ti, jão não bela, em ti já não jovem, o aromo precioso do deus:
Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.
Ada Negri
(Jorge de Sena)
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Ada Negri,
Jorge de Sena-tradutor
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