quinta-feira, 15 de setembro de 2011

LA VIE IDÉALE

Une salle avec du feu, des bougies,
Des soupers toujours servis, des guitarres,
Des fleurets, des fleurs, tous les tabacs rares,
Où l'on causerait pourtant sans orgies.

Au printemps lilas, roses et muguets,
En été jasmins, oeillets et tilleuls
Rempliraient la nuit du grand parc où, seuls
Parfois, les rêveurs fuiraient les bruits gais.

Les hommes seraient tous de bonne race,
Dompteurs familiers des Muses hautaines,
Et les femmes sans cancans et sans haines,
Illumineraient les soirs de leur grâce.

Et l'on songeraient, parmi ces parfums
De bras, d'éventails, de fleurs, de peignoirs,
De fins cheveux blonds, de lourds cheveux noirs,
Aux pays lointains, aux siècles défunts.

Charles Cros

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Primeiro Livro de Poesia

título: Primeiro Livro de Poesia
subtítulo: Poemas em Língua Portuguesa para a Infância e a Adolescência
selecção e posfácio: Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6.I.1919 -- Lisboa, 2.VII.2004)
os poetas: Gil Vicente, Eugénio de Andrade, Odylo Costa, Filho, Sidónio Muralha, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Jaime Cortesão, Bocage, Mutimati Barnabé João (António Quadros), Miguel Torga, Viriato da Cruz, Gomes Leal, Violeta Figueiredo, Ribeiro Couto, Terêncio Anahory, Luís de Camões, Vasco Cabral, Henrique Guerra, Alda do Espírito Santo, Vitorino Nemésio, Daniel Filipe, Jorge de Barros, Pedro Homem de Melo, Jorge de Lima, Maria Eugénia Lima, João Roiz de Castelo Branco, Aguinaldo Fonseca, Caetano da Costa Alegre, Fernando Sylvan, Manuel Rui, Reinaldo Ferreira, Teixeira de Pascoais, António Nobre, Jorge Barbosa, António Baticã Ferreira, Noémia de Sousa, João Cabral de Melo Neto, Glória de Sant'Anna, José Craveirinha, D. Dinis, Airas Nunes de Santiago, Rui Bueti, Ruy Cinatti, Manuel Lima, Jorge Lauten, Cesário Verde, Francisco José Tenreiro, poesia popular portuguesa e timorense
ilustrações: Júlio Resende
editora: Editorial Caminho
local: Lisboa
ano: 1991
págs.: 192
dimensões: 19,3x13,7x1,8 cm. (cartonado)
impressão: Rolo & Filhos, Mafra
tiragem: 15000
obs.: nota final de Roberto Carneiro, ministro da Educação; edição patrocinada pelo Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação
As bibliotecas públicas não aguentam os nossos livros.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ALMOÇO NA RELVA

Do céu fechado
(semi-
círculo)
sobre o
lago
cai verde
uma gota de ave
                    -- excremento --

abre n'água
cír       círculos
concêntricos

O lago, outro
círculo

verde
circundando
por mais verde avermelhado
pelo círculo do sol
poente

relva onde talo teso gramo

às portas do seu
triângulo jardim

Antônio Moura
Promontório de Deus. De onde ele se ausenta.
Só nos deixando a grande nostalgia
na sua massa espessa.
Que abre distância de recuo assídua
e alarga a inteligência
por uma busca quase festiva.
Ou mais, talvez, por uma via tensa
de júbilo e sentido. E, até, sofrida
na sua panda activação de vela.
Que vai sofrendo e activando a vinda
da invisibilidade, da surpresa
inominada, que procura ainda
seu nome peremptório. Mas nomeia
essa distância a distanciar-se
implícita.
Ou promontório de onde Deus se ausenta
para auscultarmos sua face viva.

Fernando Echevarría

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

FUI GERADO

Fui gerado
Como as sombras te geraram
Ai as sombras

Que pariram nas cavernas
Ai as sombras que pariram
Minha sombra nas cavernas

Tantos gestos que se buscam
Tantos lábios que se entregam
Tantos corpos que se apagam
nas cavernas

Ah os homens serão tristes
Pois não sabem donde vêm
Ah os homens serão tristes
Pois não sabem onde vão

Fui gerado Noite adentro
Tua fome me vestia

Fui gerado Noite adentro
Como a terra
Que as raízes não consomem

Fui gerado Noite adentro
Era o Sol que fecundava
Era a terra que sangrava
E do íntimo da terra
Era um homem que brotava

Fui gerado Noite adentro

Carlos Nejar

SÉCULO ILUMINADO

O Século Iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.

Miguel do Couto Guerreiro

PAZ (2)

Avaro de meus sonhos te invoquei,
Nascesses para mim e eras cumprida.
Ilha sem arquipélago julguei
Dividida dos outros minha vida.

Mas que voz de mim vem e te reclama,
Filha de reis dum reino que inda existe?!
Porque funde ao calor da tua chama
O inútil silêncio que resiste?

Nunca te deste toda a quem te quis
Para si, receber o que feliz
Só na comum seara se renova.

Tudo o que vem de ti é largo e vário,
Mas não sorri ao homem solitário
Que te busca sozinho em sua cova.

Arnaldo França

sábado, 10 de setembro de 2011

ESCURIDÃO

Vou pensando em viver. Entre-tem-me. Se algum dia até isto me voar, fecho as portas e as janelas, apago a luz e deito-me no chão a um canto.

António Madeira
[Branquinho da Fonseca]

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Obras Poéticas de Eugénio de Castro - Volume V

autor: Eugénio de Castro (Coimbra, 4.III.1869-17.VIII.1944)
título: Obras Poéticas de Ferreira de Castro -- Volume V (inclui Contança, Depois da Ceifa e A Sombra do Quadrante)
prefácio: Miguel de Unamuno (1907)
editora: Lumen
local: Lisboa
ano: 1929
págs.: 184
dimensões: 19,3x13x1,7 cm. (brochado)
impressão: Imprensa Nacional de Lisboa
obs.: foto do autor em 1911, extratexto

O SELO DOS DIAS

Dias virão, dias virão
a golpes secos
de potros
no chão.

Não sei se já nasceram,
não sei onde se encontram
os dias
que amo tanto.

(No cano de um fuzil
ou no cano do espanto).

Dias virão virão,
lobos de aragem
e a todos morderão
com sua liberdade.

Que pássaros
se aplumam
nas penas destes pássaros?

Serão dias saltando
aos ombros
de outros ombros,
até onde houver ombros
irão dias brotando.

Carlos Nejar

STELLA BY STARLIGHT

Quem viu estrelas
ouviu aquelas
perdidas vias velhas:

O som do rio aflito
a tarde triste em guarda
a penumbra arde em arrebol
a sinfonia astral amarga
o rouxinol perito provençal.

O som é tudo o que se adora
é tudo isso e muito mais:
um tema grego antigo
Stella By Starlight
lua trançada no cabelo
voz de desconcerto.

Tontura alta dos amantes
dribla dentro explode em canto.

Frederico Barbosa

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

L'ISLE JOYEUSE

Ó festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas dum branco rosa
Dum tempo antigo que aqui ficou

Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes para mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os deuses gregos orientais
Marcaram a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filhos
Por motivos sobrenaturais

Ilha de Moçambique, 1-3-1963

Alberto de Lacerda

GLOSA DE GUIDO CAVALCANTI

"Perchi' I' no spero di tornar giammai"

Porque não espero de jamais voltar
à terra em que nasci; porque não espero,
ainda que volte, de encontrá-la pronta
a conhecer-me como agora sei

que eu a conheço; porque não espero
sofrer saudades, ou perder a conta
dos dias que vivi sem a lembrar;
porque não espero nada, e morrerei

no exílio sempre, mas fiel ao mundo,
já que de nenhum outro morro exilado;
porque não espero, do meu poço fundo,

olhar o céu e ver mais que azulado
esse ar que ainda respiro, esse ar imundo
por quantos que me ignoram respirado;

porque não espero, espero contentado.

Jorge de Sena

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, atá ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.
[...]
É claro que falo do poeta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou. [...]

Ruy Belo, «Breve programa para uma iniciação ao canto», Transporte no Tempo, 4.ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1997, pp. 19-20.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tal como Shelley e Hardy antes dele, Lawrence irá continuar a enterrar os seus próprios cangalheiros, precisamente como Whitman enterrou várias gerações de agentes funerários que o puseram de parte.

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, p.264.

Greguerías

autor: Ramón Gómez de la Serna (Madrid, 3.VII.1888 -- Buenos Aires, 12.I.1963)
título: Greguerías
subtítulo: Uma Selecção
selecção, tradução e prefácio: Jorge Silva Melo
colecção: «Gato Maltês» #37
edição: Assírio & Alvim
local: Lisboa
ano: 1998
págs.: 110
dimensões: 18,5x11,5x1 cm. (brochado)
capa: fotografia de André Kertész
impressão: Guide - Artes Gráficas, Lisboa
obs.: edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Espanha

POUCO ACIMA DAQUELA ALVÍSSIMA COLUNA

Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos -- uns sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do seu Ser;
outros -- hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor...
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...

Hermes Fontes

LOS CAMINOS SECRETOS

Los fronterizos, los que pasen solitarios
contrabandistes, maquis, carabineros,
los que marca nel atlas con tinta azul
la pensatible mano d'una nena
qu'inda nun sabe que ye Lady Macbeth,
los que taliara mio padre per tierres del Bierzo
y aquellos perpindios pelos que yo atayaba
con tebeos baxo'l brazu
pa llegar a la caseta
de lates, plásticu y fierro
onde m'esperaben los trece
años de Yolanda la del carteru.

Los caminos secretos baxo la húmida
lluz d'una tarde antigua de marzu,
la breda erma d'un poema de Kipling
que copié nun cuaderno va pa diez años
nuna bufarda de la cai Escura.
Los que llevo anoyaos al corazón
y me train y me lleven
dica esa última alcoba que nun soi
-- bates blanques, doutores... -- pa imaxinar.

Xuan Bello

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tivemos,
Em vez de uma longa vida de doçura
A travessia de vales e montes lamacentos;
Em vez de noites breves sob os véus
O temor da viagem no seio de infindável treva;
Em vez de água límpida sob sombras
O fogo das entranhas queimadas pela sede;
Em vez do perfume errante das flores
O hálito esbraseado do meio-dia;
Em vez da intimidade entre ama e amiga
A rota noctura cercada de lobos e de génios;
Em vez do espectáculo dum rosto gracioso
Desgraças suportadas com nobre constância.

Ibn Darraj Al-Qastalli

(Adalberto Alves)