quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PAZ (1)

Pedrinhas que o mar trouxe à areia branca,
Algas ao tanque verde a cor do rio,
Minha alma se desprende em luz, sombrio
O corpo sem entrada à porta franca.

Meus sonhos quem os fez nascer tranquilos,
Serenos? Não seria a hora incerta
Que o coração ouvisse a voz desperta
E deles não seria mais que ouvi-los.

Ó sugestão marítima perdida,
De algas e rios e o mais que à vida
Deve meu ser tornado em marinheiro,

Acorda em mim de novo a voz distante
De horizontes sem fim e a cada instante
Traz-me a paz tão roubada ao mundo inteiro.

Arnaldo França

CANGA

Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.

Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.

O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.

É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.

É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.

É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.

É esta a condição de não ser homem.

Carlos Nejar

terça-feira, 23 de agosto de 2011

IN A SENTIMENTAL MOOD

Aquele piano cama

evita levitar.

Geometria acesa
máquina
porta reta aberta
ao ponto
discreto inequilíbrio
plano
da euforia precisa
sentir pensar.

Sempre paraíso
feito completo
portátil por perto
riso ao sol perfeito
seu beijo como piano
como clima som desejo.

Aquele piano
na cama
sós
é vida
a se excitar.

Frederico Barbosa

REGRESSO

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas

Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende

Vila Cabral, 22-2-63

Alberto de Lacerda

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A MÍ NO ME MIREN

Lo he dicho muchas veces y hasta me parece
que han sido demasiadas y tal vez inútiles
tantas justificaciones y disculpas:
no quiero que me cuenten entre ustedes.
No es por una cuestión de edad -me doy cuenta
que ustedes lo saben- ni por odio universal alguno
ni siquiera porque varios de ustedes me resultan
francamente insoportables.
Tampoco por temor a encontrarme
con ella, después de todo lo que pasara entre nosotros,
porque eso, para mí, es parte ya definitiva del olvido.
Simplemente, no quiero ser más uno de ustedes.

Me doy cuenta de que es muy difícil confesar esto
después de tantos años compartidos, en los que todos creímos
estar forjando una amistad hasta la muerte.
Por otra parte, la verdad es que recién ahora me doy cuenta
de las cosas que nos separan de modo –diría- inequívoco.
Tuvieron que pasar algunos años y muchas cosas
para eso, pero nunca es tarde para empezar
a decirse la verdad.
Se los digo: no quiero que me cuenten entre ustedes.

Caigo en la cuenta ahora: me aburren esas reuniones
en las que sólo nos adulamos unos a otros mientras tratamos
de ver de qué manera seducimos a las mujeres
de nuestros amigos, mientras se bebe sin medida
y muchas veces sin ganas y se discute sin altura
sobre las cosas más profundas
y se cantan, ya en la madrugada, canciones que suenan
irremediablemente previsibles mientras comienzan despedidas
tan patéticas como lacrimógenas. Puede que la mía
sea una visión antipática y por qué no injusta,
pero la verdad es que no puedo
mentirles: no quiero ser más uno de ustedes.

Por eso es que será difícil que volvamos a vernos como antes.
Empezaron a gustarme estas noches a solas, las caminatas
por una ciudad de la que me había ido alejando sin saberlo,
los nuevos amigos que se descubren sin buscarlos,
las mujeres de ojos grandes acodadas en la barra,
gente que no pide compromisos ni ofrece
reciprocidades absurdas. Entre ellos, suicidarse,
detonar una bomba, perderse en la selva,
son acciones naturales que difícilmente alteren su rutina.
He arribado al lugar indicado.

Rafael Ielpi

PALAVRAS DE JACOB DEPOIS DO SONHO

Amei a mulher, amei a terra, amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
pareceu-me ver sempre outra coisa talvez o senhor
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
Porquê não sei talvez uma pequena haste balance
talvez sorria alguma criança
Terrível não é o homem sozinho na tarde
como noutro tempo de esplendor cantei
Terrível é este lugar
Terrível porquê? Não sei bem
Talvez porque o senhor pisa esta terra com os seus pés
(lembro-me até de que mandou tirar as sandálias a moisés)
Levanto os dois braços aos céus
Aqui -- mulher terra mar --
Aqui só pode ser a casa de deus

BIRDS IN THE NIGHT

Ouço-as à noite, trémulo-erradias,
Pássaros negros! lúcida Saudade!
O silêncio da Altura que as invade,
Suavíssimo-serenas Harmonias!

Cítaras, que, através da Imensidade,
O lento ressurgir de épocas frias
Vão embalando, brandas e macias,
Em acordes de amor e piedade...

Ouço-as, Alma da Sombra, veludosas,
Como do Sonho às portas luminosas
A esta saudade que me faz cantar;

Ouço-as, à noite, cantam! indizíveis,
Misteriosos sons intraduzíveis!
Metamorfoses brancas do Luar!

Gustavo Santiago

domingo, 21 de agosto de 2011

Casas silvestres na talha das flores

esconsas velhas em cemitérios de aldeia

as cinzas desprendidas aos ventos
varridas nas soleiras das portas

vivas abrem a madeira às cruzes
regressam à memória que as vem morrer.

Alexandre Nave

sábado, 20 de agosto de 2011

CONTRAPONTO

Vestido negro,
cinto vermelho.

Luto precoce
da tua carne!

Nele se enlaça
o meu desejo.

Vestido negro?
Cinto vermelho!

David Mourão-Ferreira 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

VARIACIONES NEL MIO NOME

Tu,
que podíes ser Joao Velho
na claridá azul de Sintra.
Allá alantre, distante y amigu,
presientes a to señor El-Rei,
Dom Sebastián.

Tu,
qu'andes una tierra remota
y llámeste Jean Vieilh.
Remebres aquellos díes
tan tristes de l'Auvernia
mentes escuches per primer vez
-- immensa y rara --
la voz del dios del ríu:
Misisipi.

Tu, John Oldman,
bucaneru en Tortuga:
el mesmu Henry Morgan
a disparar per ti.

Tu, que dibes ser Juan el Viejo
allá nes tierres de Soria:
llabren afuera los bueis
la seronda del Faidor.

Y tu,
qué estraño,
llamat Xuan Bello
y tar equí, n'Uviéu,
pasando visiones escures
al asturiano claro.
Saber que to patria
siempre queda aende.
Ellí onde tu nun tas.

Xuan Bello
Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;
mais, pois fiz lealdade, vel  por Santa Maria,
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per mha malaventura tive um castelo em Sousa
e dei-o a seu don', e tenho que fiz gran cousa:
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive um castelo forte
e dei-o a seu don', e ei medo da morte.
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Diego Pezelho

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

OS INSIGNIFICANTES

O custo das casas
por incrível que pareça
sugere a possibilidade
de uma outra vida
a alma não mora debaixo do seu tempo
traz de tão longe a fragrância
de uma vegetação que cresce

mais abaixo junto à represa
um trecho de sombra
a estação tornou tudo amarelo uma última vez
o pinheiro, o rumor dos caçadores, a corrida atrapalhada da perdiz

nas vagas recordações
a orla de uma alegria que ninguém viu

os insignificantes flutuam
ao vento contínuo de Deus

José Tolentino Mendonça

Antología Poética

autor: Antonio Machado
título: Antología Poética
introdução e selecção: Arturo Ramoneda
colecção: «Alianza Cien» #65
editora: Alianza Editorial
local: Madrid
ano: 1995
págs.: 92
dimensões: 14,8x10x0,6 cm. (brochado)
capa: Ángel Uriarte sobre retrato de Machado por Pablo Picasso
impressão: Novoprint

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

GENEALOGIA

Desconheço as palavras que os antepassados
proferiram, na genealogia celular da reprodução.
Imagino-os a balbuciar estranhos sentimentos
junto aos muros das casas nubladas de memória.
Observar o perfil dos mais recentes frutos
dessa árvore cujas raízes se perdem
no subsolo da transfiguração.
Descobrir semelhanças, prever diferenças que só
o seio da terra guarda na sua eternidade de segredos.
Aqui estamos, parentes próximos e longínquos
sujeitos à ditadura dos códigos genéticos.
E também dos vermes que descodificam na terra
a indiferença dos que hão-de suceder-nos

João Candeias

terça-feira, 16 de agosto de 2011

PIRATARIA

     Antigamente embarquei para a Índia.
     Mas quando a estrela não é boa já se não volta a Lisboa nem se lá chega, também. Os marinheiros revoltaram-se e abandonaram-me nesta ilha deserta em que só há macacos e bananas.
     Cego a olhar o mar, esperando que passe um navio que me regresse à Pátria.

António Madeira
[Branquinho da Fonseca]

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ai, pudesse eu ser pintor e verter
numa folha impressa, limpa, as cores todas
que a cidade me reserva no seu bojo
de água clara e luz aquietada rente
aos muros das hortas e às paredes rosa velho
dos prédios da memória da infância.

Ai, pudesse eu transfigurar-me em ave
daquelas que salpicam em voo o cetim
azul das tardes e pintaria a golpes de asa
uma outra vocação que não a minha, talvez
a tonitruante vocação dos hereges, dos
revoltosos, dos anunciadores de tudo
o que se muda e se transforma; outro
desígnio não quereria ter a não ser este:
o de me fazer na cor comum do que vejo e sinto.

José Jorge Letria

domingo, 14 de agosto de 2011

recitativo VIII

quando, de duas casas contíguas, uma é demolida
e ficam na parede da outra os restos inegáveis
da primeira, rectângulos alinhados da
pintura de cada divisão e onde às vezes
se nota ainda a marca de uma estante
e se fica a saber que «ali houve uma casa», elemento
preciso de uma hierarquia de coisas e pessoas
administradas sob o estuque da teologia, quando
as águas e as luas parecem ter escorrido
com alguma dureza no pano da parede
e uma espécie de púbis alastra na pintura, sombriamente,
como um fumo muito velho, um fumo da razão
tocada pelo vento, e cresce mato
na base

Vasco Graça  Moura

quinta-feira, 28 de julho de 2011

As tuas coxas de firme e elástico contorno
E de doces energias,
Que cálice de segredos rompe a sua dureza vertical?
Que sombra de apertadas e nocturnas pestanas
Lhes empresta essa agilidade comprometida?

Peixe que só tem a água do amor.

Joaquim Gomes Mota

terça-feira, 26 de julho de 2011

ABRIL

Assalto
ao Palácio do Inverno
para de vez
implantar
a Primavera.

João Pedro Mésseder

segunda-feira, 25 de julho de 2011

POÉTICA

Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão mais implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento

Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante

E isso é tudo o que nos resta

José Tolentino Mendonça