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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ó mais doce que a vida, ó praia! Ó mar!
Feliz, que enfim à minha terra volto!
Outrora aqui, nadando, eu afagava
Co' alternas mãos as Náiades tranquilas.
Eis a lagoa onde se curvam as águas.
Eis-me no porto em que o desejo acaba.
Vivi: que o Fado infausto jamais rouba
O que dado nos foi num'hora antiga.

Petrónio

(Jorge de Sena)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Porque pálido e triste, meu rapaz?
     Dize: porque tão pálido?
Ou, quando um ar jocundo não lhe apraz,
     um ar triste -- é mais cálido?...
     Dize: porque tão pálido?

Porque silente e mudo, pobre jovem?
     Dize: porque silente?
Ou, quando meigas falas a não movem,
     ser mudo -- é eloquente?...
     Dize: porque silente?

Vamos, vamos!... Juízo! O teu penar
     que pode ter, que enleve?
Se por si mesma te não quer amar,
     mais fria do que a neve...
     -- o demónio que a leve!

John Suckling


(Luís Cardim)
Vem daí, deixa lá esse torpor,
Que o que agora conta e tem valor
É a amada, linda como a lua,
E teres sempre cheia a taça tua!
Não te embarace tanto nevoeiro
Que sobre jardim e vinho vai pairando.
Estares presente é o dever primeiro
E logo o jardim se irá mostrando.

Ibn Bassam

(Adalberto Alves)
Amo e odeio. Como? Perguntais por certo.
Não sei, mas sei que sinto e sei que sofro assim.

Gaio Valério Catulo

(Jorge de Sena)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Desprezei toda a paixão
Era bem moço eu ainda então.
O Tempo me açoitou
E só cãs e velhice me deixou.

Depois, já fora de estação,
Entreguei-me nos braços da paixão.

Ah nascera eu na decrepitude
P'ra regressar depois à juventude!

Ibn 'Ayyas al-Yaburi

(Adalberto Alves)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O casamento de almas de eleição,
nada o embarga. Nunca foi amor
o que vacila posto em provação,
ou se bandeia ao próprio destrutor.

Ah, não! O amor é um sinal constante,
encara as tempestades sem tremer:
a Tramontana desta nau errante,
cuja «altura» nos salva -- ou faz perder.

Não teme, ó Tempo, a tua foice adunca:
róseas faces e lábios, esses sim;
não muda em horas, dias, meses, -- nunca! --
teima e perdura até ao fim do fim...

E se por falso rumo agora vou,
-- jamais poetei! jamais alguém amou!

Shakespeare

(Luís Cardim)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

IDÍLIO MORTO

Que fará a esta hora a minha andina e meiga Rita
de junco e capulim;
agora que me asfixia Bizâncio e que dormita
o sangue, como débil conhaque, dentro em mim.

Onde estarão suas mãos que em posição contrita
engomavam nas tardes uma brancura ainda por ver;
agora, nesta chuva que me evita
o gosto de viver.

Que será de sua saia de flanela; de seus
trabalhos; seu andar;
do seu sabor a canas de maio do lugar.

Há-de estar à sua porta, olhando o céu nublado,
e a tremer dirá: «Oh que frio... meu Deus!»
E um pássaro selvagem chorará no telhado.

Cesar Vallejo

(José Bento)

domingo, 5 de dezembro de 2010

A morte, dona de quem sente,
Está entre ti e tudo quanto almejas
Não a esqueças da alva ao sol poente
Para que sempre na memória a vejas.

Seja ela bálsamo para o teu olhar
Nos momentos em que tu medites,
Quando a minha alma de ti se afastar
E no derradeiro estertor te agites.

Ibn Al-A'lam as-Santamari

(Adalberto Alves)

sábado, 4 de dezembro de 2010

A FLOR DA TUA GRINALDA

Um dia
Não sei
Por que merecimento,
Graças a que virtude,
-- Ó Beleza, --
Eu, flor do bosque,
Figurei na grinalda que te rodeia o colo.
     -- Então,
Ao romper da manhã,
Os primeiros clarões da aurora
Pareceram mais belos
À terra que descerrava os olhos...
..............................................................
     Agora
Que desfalece o dia
Na luz que morre e nos cantos das aves,
Se, na sua extrema lassitude,
Batida pela brisa do crepúsculo,
     A flor tombar por terra,
Que ela siga os teus passos
     Para sempre, -- ó Beleza! --
Sem que a macule nunca
     A poeira do caminho!

Rabindranath Tagore

(Augusto Casimiro)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O GATO

O meu não come ratos, não gosta. Se apanha algum, é para brincar com ele.
Quando brincou tudo, poupa-lhe a vida, e vai sonhar noutra parte, o inocente,
          [sentado no caracol do seu rabo, a cabeça fechada como um punho.
Mas, por causa das garras, o rato morreu.

Jules Renard 

(Jorge de Sena)

domingo, 21 de novembro de 2010

FRAGMENTO

Se o vento ao mar azul o calmo espelho afaga,
sem ondas levantar, a terra já não amo:
sorrisos de um sereno e de um tranquilo fundo
me tentam alma inquieta. Mas se o estrondo ecoa
do Oceano abismos turvos, e se a crespa espuma
coroa as altas vagas que rebentam fortes,
para a terra me volto e seus profundos bosques
onde os pinheiros cantam no soprar do vento.
Aquel' que um lenho habita e sobre o mar trabalha
dos fugitivos peixes só vivendo, tem
sorte mais triste. Eu lânguido me alongo aonde
o murmurar do rio ao espírito me anima,
sem que da paz o acorde ou súbito o perturbe.

Mosco de Siracusa

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O homem é um pequeno universo.
Demócrito

(Maria Helena da Rocha Pereira)

domingo, 14 de novembro de 2010

Ah! não chores por mim  quando eu morrer,
quando o plangente sino magoado
disser ao mundo vil que, fatigado,
com vilíssimos vermes fui viver.

Lendo estas linhas, deves esquecer
a mão saudosa que lhes deu traslado:
que o bem de perdurar num peito amado
em mal se torna quando o faz sofrer.

Não, se vires esta rima dolorida
quando a terra em seus braços me retome,
que finde o teu amor co'a minha vida,
e nem recordes o meu próprio nome!

Pois se o mundo te vê na dor absorto,
inda zomba de mim depois de morto.

William Shakespeare

(Luís Cardim)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

PORTO, CIDADE VELHA

Na cidade velha do Porto,
no primeiro andar de um restaurante,
a uma mesa de janela,
estava eu com o poeta português Andrade,
um homem seco com gestos de adolescente.

Comíamos tripas e bebíamos o vinho da sua terra
e falávamos um tanto timidamente
das literatura dos nossos países e da França,
voltando sempre à revolução perdida,

enquanto lá em baixo brincavam os filhos dos pobres
e bolas de sabão voavam pela rua,
bola a bola passando pela nossa janela
e voltando sempre, a correr
contra o céu azul
até se desfazerem
contra os muros
sombrios das casas.

Wolfgang Bächler

(João Barrento)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Vamos, meu bem, a ver se a rosa
que esta manhã, ao sol, airosa,
a sua roupa abriu vermelha,
não perde em hora vespertina
pregas da veste purpurina
e a tez que à vossa se assemelha.

Ai, vede como em pouco espaço
ela deixou, ai, triste passo,
toda a beleza fenecer.
Ah, que madrasta é a Natura
pois flor assim mais já não dura
que entre manhã e anoitecer.

Pois se me credes, vós, meu bem,
enquanto a idade em flor vos tem
nessas primícias de verdura,
colhei, colhei a mocidade
que como à flor a velhice há-de
turvar a vossa formosura.

Pierre de Ronsard

domingo, 31 de outubro de 2010

A AMADA

Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.

E se seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.

Ibn 'Ammar

(Adalberto Alves)

sábado, 30 de outubro de 2010

Tens que fazer, meu rapaz?
Não tardes que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.

Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.

Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade,
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: -- Rapaz, é tarde.

A. E. Housman

(Jorge de Sena)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A nossa linguagem é
mecânica,
atomística
ou dinâmica.
A linguagem poética autêntica
será orgânica, viva.
É tão grande a pobreza das palavras
para dizer de um só golpe
a ideia plural!

Novalis

(João Barrento)
Rosa, em teu trono, pra os da Antiguidade
era um cálice com um bordo simples.
Mas para nós és a flor plena, inumerável,
o objecto inesgotável.

Pareces na opulência trajo sobre trajo
a envolver um corpo de nada mais que brilho;
mas cada pétala tua é a um tempo só
fuga e negação de toda a roupagem.

De há séculos teu perfume nos proclama
os seus nomes de maior doçura;
de súbito, paira no ar como uma glória.

No entanto, não sabemos nomear, adivinhamos...
E para ele passa a lembrança
que pedimos às horas invocáveis.

Rainer Maria Rilke

(Paulo Quintela)

sábado, 23 de outubro de 2010

UM EPITÁFIO

Que tu morreste, Heráclito, me dizem.
Amargas novas de que choro amargo.
Chorava, e relembrava quantas vezes,
falando nós, o Sol se pôs exausto.

E agora que tu és, meu velho amigo,
de cinzas um punhado há muito frias,
ainda a tua voz, o rouxinol, não dorme:
omnipotente a Morte, contra a voz não pode.

Calímaco

(Jorge de Sena)