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quinta-feira, 8 de julho de 2010

CAMPO DE REFUGIADOS

A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?

Fiama Hasse Pais Brandão

domingo, 11 de outubro de 2009

COM A SUA PELE

À mesa do café estava sentada uma rapariga triste, mulher
que já tinha idade. É tão aborrecido ser feio, ter perdido a adolescência.
Álvaro caeiro, meu mestre ou modelo, nem Alberto nem Campos, que
lhe diria se a encontrasse ali como eu depois de jantar?
Ao lado, na avenida, as árvores velhas e enormes também nada sabiam
de certos plátanos que à beira da estrada, caninos e elegantes,
sugeriam imagens com que falar melhor das adolescentes e das vacas
novas, tenros bezerros com o focinho cor de rosa que apetece beijar.
E as raparigas, com a sua pele matinal e fresca, com os seus vestidos
de algodão azul e branco decotados, mostravam o pescoço inteiro, um pouco
do peito em que não tinha ainda pesado o corpo dos homens.
À mulher cansada, rapariga não há muito tempo, eu não disse nada.
Pensei apenas: companheiras interessadas e atentas dos nossos sentimentos,
a natureza é cruel convosco; nem a memória nos fica, nem no vosso rosto
o vestígio daquela que fez sofrer e desejar; sempre
tivestes essa cara triste e calada, o exagero dessa maturidade.
Os plátanos velhos não curvaram os ramos para me ouvir sentir, não bocejaram,
desolados, quando comecei a afastar-me, seguindo o meu caminho.

João Camilo

domingo, 16 de agosto de 2009

A UMA OLIVEIRA

Muito antes de Os Lusíadas diz-se que já aqui estavas.

Pré-camoniana,
sazão a sazão,
foste varejada séculos a fio.

O pinho viajou.
tu ficaste.

Ao som bárbaro de um rádio de pilhas,
desdobram toalhas
na tua sombra rala.

Alexandre O'Neill

sábado, 25 de julho de 2009

COMPOSIÇÃO COM ÁRVORES

Aquela ave do sol, e sol das aves, (Jerónimo Baía)

A árvore ainda árvore de sol
Rasga a pisada tela, sobressai régia,
Imprecisa, esfuma-se, rebuscada
Pungente e verdejante a réplica?
Amena a mão ao desenho oferece.
Laivos verdejantes a ampliar a árvore.
O risco incerto impõe a árvore triste.

A árvore alva, luzidia, perla
Na assombrosa descrição afinal calcário leve
De árdua escadaria, profana, disponível
A secura indistinta.
O largo ramo de luz entumecido.

A árvore ainda árvore selecta
Deslumbra ao mover-se da espessura
Da copa airosa o cone aceso (aceso de agreste).
Empobrece.

Rompe-se a cal constante
E de branca inventa a alvura.
Seca a árvore que aparece.

José Emílio-Nelson

segunda-feira, 22 de junho de 2009

BOTÂNICA: O CIPRESTE

No canto de terra onde o plantaram,
procura o sentido da linha recta. Não pretende
o círculo, a roda das estações, a fuga ao
eixo que a gravidade lhe impõe. Aceita
que o céu é o seu destino; e por isso
as suas raízes que se alimentam dos mortos,
que lhes cedem as almas para
que o tronco as liberte, no inverno,
quando o frio faz vibrar a luz que
o envolve. Não oferece a sombra
a quem passa; não pede a companhia
dos amantes que o evitam, em busca
de um abrigo de flores. O seu destino
é o ponto que o olhar fixa, para além
do azul, num infinito em que outras
raízes crescem, bebendo o leite negro
das mitologias.

Nuno Júdice

quinta-feira, 28 de maio de 2009

REQUIEM PELA VELHA AMEIXIEIRA

Crepita a madeira na lareira
crepita a velha ameixieira
seus veios são as minhas próprias veias
vejo arder as ameixas e o verão
crepita aquela que deu sombra e agora dá calor
crepita o melro o verdilhão o rouxinol
e em cada tronco palpita
o próprio sol.
Crepita o sumo que escorria
pelo teu rosto onde o tempo também ardeu
crepita a velha ameixieira
e quem com ela crepita
sou eu.

Águeda, Natal, 2001
Manuel Alegre

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A NESPEREIRA DAS VARANDAS

Anainha entre as grades irritantes
E o tronco num caixote indigno dela,
Sonha uma condição, que não aquela,
Adivinha jardins, hortos distantes.

Sem confiar, porém, no viandante
Que ela vê lá de cima da janela,
Deixou cair as folhas na ruela
E ergueu ao céu os braços suplicantes.

Eu, que venho do campo e ali fui nado,
Bem avalio a pena que lhe assiste
Longe do ar puro, e fresco, e perfumado.

Ó minha irmã! Ó pobrezinha! Ó triste!
Como tu, ando alheio, ando exilado,
Preso da mágoa a mais atroz que existe.

Ed. Bramão de Almeida

sábado, 21 de março de 2009

RUMOR DE VENTO AO CREPÚSCULO

A juventude duma olaia:
passou o vento
e levantou-lhe a saia.

Que ficou desse amor
mais que o rumor do vento?
Ou mais do que perder
nos longes da campina
o subtil rumor
que foge e não se esquece?

Violada se debruça
a noiva vegetal
agora que anoitece.

Carlos de Oliveira

sábado, 7 de março de 2009

MÃE

Olha, meu Filho! quando à aragem fria
Dalgum torvo crepúsculo, encontrares
Uma árvore velhinha, em modo e em ares
De abandono e outonal melancolia:

Não passes junto dela, nesse dia
E nessa hora de bênçãos, sem parares:
Não vás, sem longamente a contemplares:
Vida cansada, trémula e sombria!

Já foi nova e floriu entre esplendores:
Talvez em derredor dos seus amores
Inda haja filhos que lhe queiram bem...

Ama-a, respeita-a, ampara-a na velhice;
Sorri-lhe com bondade e com meiguice:
--Lembre-te, ao vê-la, a tua própria Mãe!

António Correia de Oliveira

sábado, 7 de fevereiro de 2009

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

sábado, 17 de janeiro de 2009

ÁRVORE RUMOROSA

Árvore rumorosa pedestal da sombra
sinal de intimidade decrescente
que a primavera veste pontualmente
e os olhos do poeta de repente deslumbra

Receptáculo anónimo do espanto
capaz de encher aquele que direito à morte passa
e no ar da manhã inconsequentemente traça
o rasto desprendido do seu canto

Não há inverno rigoroso que te impeça
de rematar esse trabalho que começa
na primeira folha que nos braços te desponta

Explodiste de vida e és serenidade
e imprimes no coração mais fundo da cidade
a marca do princípio a que tudo remonta

Ruy Belo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

AS ÁRVORES

Quedo-me a contemplar, longamente,
As árvores de Deus, e a ouvir-lhes as suas falas:
E muitas vezes, quando morre o velho poente,
Eu me deixo ficar, enternecido, a amá-las.
Criaturas de Deus! São ingénuas donzelas
Vestidas de noivado, a caminho do altar;
São atletas que vêm de atravessar procelas,
Ou caravanas de mendigas, a esmolar...
Cobre-as a flor d'Abril -- ei-las ressuscitando,
Virgens e a fecundar, venturosos amores!
Vão-lhes poisar na rama os meus sonhos cantando,
E elas abrem o riso angélico das flores...

Inclinada, a florir sobre as lúcidas águas
Dum ribeiro, era Ofélia uma que eu ontem vi:
Águas ao poente iam carpindo lentas mágoas,
Como a elegia desses sonhos que eu perdi!
(O sol já mal doirava as serras encantadas)
E eu vi, o tronco envolto em heras enroscadas,
Curva, sem uma flor, erguendo os magros braços,
outra árvore, na sombra, inclinar-se defronte...
Era Hamlet? -- Quem sabe o sonho dos espaços,
Quando o luar ascende a polvilhar o monte!...

Sobre a encosta, fitando o céu esmorecente,
Um roble secular, rugoso, entorpecido,
Solto o cabelo, na atitude de quem sente
Um pesadelo a uivar no coração ferido;
Abandonado, a olhar, com o ar dum doido errante,
Como quem viu por terra o Sonho fulgurante,
Como quem foge a ouvir o ruir amaldiçoado
Da cidade do Amor irradiante e quimérica,
É o rei Lear que desce a encosta do Passado,
Aos primeiros clarões da lua cadavérica!

Criaturas de Deus! Quantas vezes o arvoredo
Brame como os leões, sorri como as crianças:
Quantas vezes eu paro e lhe escuto um segredo,
Quantas vezes lhe beijo a flor das suas tranças...
Quantas vezes pergunto aos choupais e amieiros,
Quando o vento lhes vibra as folhas sensitivas,
Se eles não são os velhos Bardos, os Troveiros,
Chorando, ao pé do rio, umas visões esquivas...
Em meio da floresta escuto as litanias
De monjas cujo amor emaciou de ilusões;
E à noite, ao apontar de estrelas ainda frias,
Na floresta heis de ouvir murmúrios de orações...
Quem não viu, como Agar de lágrimas coberta,
Um tronco d'oliveira, em meio da paisagem
Abandonada, melancólica, deserta,
Com rebanhos carpindo, ao longe, na pastagem?
Quem não ouviu ainda o marulhar das frondes,
E na selva, de noite, o eco dos profetas?
Quem não ouviu falar desse tremendo Sonho,
Quando tu, ó luar, pela escarpa te escondes,
-- E as folhas caem como lágrimas de poetas!...

A figueira da estrada! Há tanto que eu me ponho
A vê-la de remorso, já velha, a chorar!
A sua sombra é má; não tem lendas suaves;
E quando o Inverno chega e emigraram as aves,
A figueira parece alguém que vão matar!

Ó Árvores, irmãs de todos nós, um dia
Há-de esta alma reunir-se à vossa alma dormente...
Deixai rasgar o tronco e arrancar-vos as flores!
Deixai a dor talar os campos da alegria,
Que uma árvore não morre, e não morrem amores...
Ó tronco decepado, ó Santo resplendente,
Pregando na floresta, -- e morto num desterro,
Quem te verá ascender num milagre imprevisto,
Tendo a chaga do Sol a alumiar-te o enterro,
-- Transfigurado, aureolado como Cristo?!...

Júlio Brandão

domingo, 9 de novembro de 2008

A UM PINHEIRO QUE VÃO CORTAR

(Ao Severo Portela)

Ó pinheirinho triste, meu irmão,
De fraguedos e chuva alimentado!
Com que mágoa te vejo recortado
No frio azul da tua solidão!

Eu bem entendo a viva inquietação
Do teu olhar em Deus mal confiado!
Bem sei que vais tombar, decapitado,
Mãos erguidas em prece de cristão!

Bem entendo a irreal melancolia
Do teu rosto engelhado, neste dia
Que a toda a volta espalha desconforto;

Mas -- ó corpinho tenro, de criança! --
Que te console, ao menos, a lembrança
Do bem que espalharás depois de morto!

Eduardo Salgueiro

terça-feira, 21 de outubro de 2008

(A uma árvore seca num velho pátio da
Rua da Palma.)

Todos os dias passo à tua beira
árvore que tens nos troncos e na rama
um destino igual ao meu.
E o mesmo rumo
sem chama
nem fumo.

Aranha de solidão
a tecer como eu
cinzas de não haver fogueira.

Todos os dias passo à tua beira...

(Mas ai de quem só tem chão!
-- sem labaredas
nem asas de um momento
para ir procurar veredas
no país do vento!)

José Gomes Ferreira
s#7

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Árvores

O vento inebriado

O piar de certos pássaros

O jardim

O olhar que vai dar continuamente
Ao horizonte

As paredes vetustas

Rosas iluminando
O desmaiar lentíssimo
Da tarde

The Stone Bar
Pilton
19 de Agosto 97
Alberto de Lacerda
s#6

domingo, 21 de setembro de 2008

EM MARÇO

Em Março chovia abundantemente. Eu atravessava o rio. O vento vergastava a chuva que me ensopava a roupa. Nada disso me faria desistir da quotidiana incursão. Havia um secreto encontro, uma dobra na passagem das horas, um infindável momento sobre as águas pluviosas de Março. Do que se tratava afinal? De uma simples árvore quebrada cujos ramos assomavam ligeiramente em furiosa perseguição. Na árvore eu via a beleza dos náufragos. E eu recebia-a. Insignificante dádiva do acaso. Generosa afluência meditando-me como os espelhos meditam. Fizesse eu da minha vida esta perene contemplação na tempestade, sempre em direcção aos altos céus de Março. Sob a forma da árvore indesistente, veria a verdade quando da verdade tivesse desistido. Um parêntesis no conformado desespero que me rói. Uma luminosa canção no epicentro da minha morte.
Luís Quintais
s#5

sábado, 13 de setembro de 2008

ÁRVORES

As árvores desprezadas
ganham espinhos.
Uivam de solidão.


Teresa Rita Lopes
s#4

domingo, 24 de agosto de 2008

DOS PINHAIS

Ondulando, os pinhais
quiseram ser o mar.
Murmurando, quiseram ser
o vento. Mas somente
no meu ouvido eram vento,
nos meus olhos, mar.

E hoje, ali na encosta,
pinhais bordejam
o mar, sustêm o vento.


Fiama Hasse Pais Brandão
s#3

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

DA ÁRVORE, NUMA RUA DE LISBOA

Esta árvore só, insana,
chamou a si todos os pássaros
da rua. E aceita, assim,
mil olhos que, no crepúsculo
da tarde, se fecham,
mil olhos, abertos
no crepúsculo da manhã.


Av. da República, 1996
Fiama Hasse Pais Brandão
s#2

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Este céu peregrino onde viajam
Meus olhos

Estas vozes sem voz que respondem
Ao meu silêncio

Este azul
Nimbado

Estes ciprestes

O cheiro das árvores que penetra
Nas gavetas antigas

O ar que murmura
Paralelo à eternidade:
Piero della Francesca

Piero della Francesca


Cortona,
30 de Jul. de 1969
Alberto de Lacerda
s#1