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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

PERDIÇÃO

                                                                                                                                                                                                        A MANUELA PORTO

Prazer de caminhar assim anónimo, sem rumo,
Sob a chuva miúda que põe reflexos na calçada,
Sentindo cair a noite outonal sobre a cidade...

As luzes dos carros que passam velozes,
As luzes das montras por que passam os vultos,
Fazem sombras secretas em quem vai e em quem vem...
É-se apenas um vulto que passa na noite que desce...
A nossa vida esquece e vai
Como uma folha dessas que o vento leva... -- para onde?...

Alberto de Serpa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O VELHO PALÁCIO

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistavam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinheirais pregar.
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas...

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida...

Gomes Leal

PENUMBRA

Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta      nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A NOITE DAS CIDADES

Repousa nas mãos o sangue pronto
a libertar o cântico exigente,
aqui nada é tão de aço como o ódio
e o homem crucificado
mente.

Repousa o sangue
alongando a cor
ao choro que unicamente
a noite abraçada à lua
consente.

E dentro desta noite igual a tantas outras
existem bocas tristes que não cantam
e alongam, amigas,
a lição das aves suicidas
que à gaiola preferem a morte
revoltada.

Aves diariamente insignificantes
(diárias como tudo o que é simples)
que repousam na mão o sangue pronto
a correr,
vermelho pelas ruas da cidade.

António Augusto Menano

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

OS PASSOS NA NOITE

Ouve, querida, na noite angustiada,
sem portas mas perfeita como um ovo,
como soa e ressoa a martelada
de cada passo do povo.

Ouve, na noite descarnada e enxuta,
o som que sobe, vertical e inteiro.
Ouve, querida, até às lágrimas, escuta
o oceano prisioneiro.

Noite implacável, arrepiada de vultos
como versos que mordem o papel
em que crianças, com gestos de adultos,
enchem de grãos de areia a nossa pele.

Noite aos quadrados, grades de gaiola,
cada quadrado fecha uma canção,
era aos quadrados no tempo da escola,
continua aos quadrados desde então.

Mas para lá dos barrancos, das ciladas,
para lá do engano e o desengano
cada pancada assobia madrugadas
cada pancada tem um som humano.

Compassados os passos, contra o vento,
escalam a noite descarnada e enxuta.
Viris, soam, ressoam no cimento,
ouve, querida, até às lágrimas, escuta.

Sidónio Muralha

POENTE

Morre a luz sobre o ar leve e macio,
É tarde, passa o vento devagar,
E o povo dos pinheiros, junto ao rio,
Em filas põe-se a vê-lo ir para o mar.

Sofregamente, as coisas, já com frio,
Guardam restos da luz, inda no ar,
E a sombra, pelo solo ermo e bravio,
Sonolenta, começa-se a deitar.

No ocaso, um rude monte, com cuidado,
Que o Sol não fique nele ensaguentado,
Parece agora mais redondo e mole;

E, no nome da Terra, em frente ao espaço,
Um castanheiro, ao longe, ergue o seu braço,
Comovido a dizer adeus ao Sol!

Nunes Claro

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

FELICIDADE

As pálpebras do dia
fecham-se no horizonte.

Na ávida transparência
dos nossos corpos
abre-se o amor
que sabe a mar,
sal e terra lavrada.

Unidos,
ardendo na mesma fogueira,
bebemos na vigília
a noite inteira.

Lá fora,
sem aviso,
rompe a aurora.

Telo de Morais

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Arco na noite
Gato preto dispara lentamente
O cinzento colorido
Das suas estrelas de nervos.
O teu corpo de mulher
Dispara o sal puro
E a maciez da espuma
Do arco branco da areia da praia.

Joaquim Gomes Mota

JARDIM DE INVERNO

Na noite violenta os homens fingem que passeiam
e os senhores olham do alto de uma torre de marfim
-- são os pássaros ou são as árvores que chilreiam? --
Deixem dormir os homens nos bancos de jardim.

Deixem dormir os homens sossegados,
enrolados no frio como se tivessem cobertores,
-- os jardins parecem lares civilizados
com tapetes verdes e com flores.

Desfilam os sonhos macios e amáveis
e no sono dos homens adormece o desespero.
Ninguém mais diz que os bancos são inconfortáveis,
o que seria exagero.

E é evidente que eles são exagerados
quando estampam no rosto o sofrimento,
hipócritas que de braços cruzados
dormem felizes ao relento.

Parecem procurar, quando passeiam,
quem tem culpa que o mundo seja assim,
-- são os pássaros ou são as árvores que chilreiam? --
Deixem dormir os homens nos bancos de jardim.

Sidónio Muralha

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ERÓTICA

A noite descia,
Como um cortinado,
Sobre a erva fria
Do campo orvalhado.

E eu, (fauno em vertigem
A rondar em torno
Do teu corpo virgem,
Sonolento e morno),

Pensava no lasso
Tombar do desejo;
Em breve, o cansaço
Do último beijo...

E no modo como
Sentir menos fácil
O maduro pomo
Do teu corpo grácil.

Ou sem lhe tocar
-- De tanto o querer! --
Ficar a olhar,
Até o esquecer,

Ou como, por entre
Reflexos de lago,
Roçar-lhe no ventre
Luarento afago;

Perpassando os meus
No teus lábios húmidos,
Meu peito nos teus
Brancos
               seios
                         túmidos...

Carlos Queirós

NOITE

Pergunto à noite
sombria
o que é que sobra
do dia?

Claramente de dia
a sombra
é mais negra
que a noite.

Armando Taborda

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poesia da Noite


título: Poesia da Noite
antologiador: Urbano Tavares Rodrigues (Lisboa, 6.XII.1923)
apresentação: «Acerca da noite e dos seus aspectos na poesia portuguesa» (U.T.R.)
poetas antologiados: Luís de Camões, Bocage, Antero de Quental, Almeida Garrett, Gomes Leal, António Nobre, Eugénio de Castro, Cesário Verde, Teixeira de Pascoais, José Duro, Florbela Espanca, Afonso Duarte, António Patrício, Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, José Régio.
edição: UCB - Divisão Farmacêutica /Neo-Farmacêutica, Lda.
local: Bruxelas
ano: 1970
capa: Henrique Ruivo
págs.: 64
dimensões: 18,8x13x0,7 cm. (brochado)
impressão: Cromotipo, Lisboa
obs.: editado pela farmacêutica belga, por ocasião da apresentação em Portugal do produto Isonox

NOITE

Noite profunda e negra
Céu sem estrelas nem lua
Mar imenso bramando longe
Gritos de gente esperando em vão
Barco pesqueiro perdido além
Ondas furiosas que o não trarão mais

Mas nem todas as noites hão-de ser
Negras e profundas
Nem sempre o mar rugirá de raiva
Esmagará furioso
Os homens temerários
Que se atrevem a sondar-lhe o seu infinito Mistério

Hão-de vir noites suaves e amenas
Noites de céu com estrelas
E luar brilhante
Em que o mar há-de ser sereno e azul
De um azul de calma e mansidão
Aberto e franco a receber os homens temerários

Em que os homens
Hão-de poder enfim descansar sobre as ondas calmas
Em que os homens hão-de poder cantar
E em que hão-de poder viver
A plenitude da Vida
De olhar ridente e corações ao alto
Num amor alegre
Em quietude e Paz
Para sempre e eternamente

Eduardo Teófilo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

PASSOS DE VELUDO (título póstumo)

                                                                                                                                                                                                 Do not go gently into that good night
                                                                                                                                                                                                                                    Dylan Thomas

Não permitas que a noite se desabe,
habituada e negra. Antes confunde
as regras e as sombras que lhe obedecem,
cegas. Não descanses olhar sobre
o vazio, nem no silêncio seduzindo
em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,
ou tampas de barulho avesso à almofada.
Grita, blasfema, geme em timbre agudo,
mas não deixes a lua, com passos de veludo
entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.
Nem lhe ofereças um lar de cabeceira
e penumbra doente. Argumenta-a de frente
e à seda roçagante dos seus passos;
numa filosofia de algibeira,
resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga
a sua máscara ausente de suor. Não entres
docemente nessa noite. Não entres
tão depressa.

Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

NAMORO DE ALDEIA

Duas horas e meia da manhã:
o trabalho que espera sossegado,
o cansaço do fogo na lareira,
a caneta riscando e o cantar do galo
estremunhado

Deve pensar que são seis horas, este galo,
e o meu trabalho em sono, o fogo que me fala,
uma unha roída,
um cigarro fumado,
o café a fazer e o poema desfeito
em só cadência

Que tema é este sério a esta hora
breve da manhã, com o trabalho à espera
e o fascínio do fogo?

Deve pensar que possui tema, este poema
que não me evita e me namora ousadamente
a desoras na aldeia

O fogo estala e outro galo canta
e o meu trabalho enjoa sossegado
No romance parado do meu poema e eu,
o café já saiu, começou a chover

Escorrem gotas macias no telhado,
o fogo morre, o trabalho desperta
abrindo um olho lento

e o meu namorado parvo e tonto
carregado de imagens (e de outras coisas leve)
sai furtivo a desoras

Só deixou por roer
a unha do polegar
da minha mão direita

Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NOITES DE MACAU (1)


Da boca da noite soltam-se as sombras,
encostam-se aos muros,
deitam-se no asfalto.
Por vezes atravessam as ruas
a correr.
Junto ao Lou Lim Leoc
eu vi duas mulheres
saírem de uma casa
cor de rosa.
Gritavam aos deuses tailandeses,
traziam os cabelos soltos,
e choravam.

António Augusto Menano

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

De tanto bater à porta
Da noite que à noite cai,
Ninguém com ele se importa
Nas ruas por onde vai.

De volta a casa, não diz
Como aprendeu a acender
Estrelas que o fazem feliz
Porque não querem morrer.

Vergílio Alberto Vieira

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Donde vem o luar?!
Do sol
que tomba?

Da luz sombria do meu olhar!

A luz foi sempre um girassol
de sombra.

António de Navarro

HORA CREPUSCULAR

Só, na noite. O vazio do intrincado espaço
da memória, teia quase perfeita de finos
nervos. Como num bastidor, quebrou-se agulha,
rompeu-se o fio de seda, ou lã macia.
Ou foi só o crepúsculo que, dissonante, entrou?

Só, na noite, no vazio intrincado do pensar.
Mas, se brilho na teia? Se segundo qualquer crepuscular
à cabeceira, onde medicamentos
e pequenas flores? Que olhar nos é negado?
Alguém em limiar ou tempo ausente?

De encontro aos cobertores, que frio maior?
O frio nos fios da teia em desconserto. E rotos.
Mas, se alguma candeia de século passado,
o azeite a manchar o bastidor? Só, na noite.
Sem deuses, nem demónios. A teia a oscilar,

sem som.

Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

GRILOS EM QUINTA-FEIRA

Grilos ao longo de mil sons cinzentos.
Mas: grilos sempre e só.
Acima de mil sons: este, o dos grilos.
E a percepção assim se forma,
inteira. Ou, se assim o quisermos,
uma cadeira ao longo dos tijolos,
tantos tijolos. Mas são eles que fundem
o olho de aqui estar. Ou o luar
que se abandona inteiro por tantos
mil pigmentos de cantar. Porque
acima de todos (lua, cadeira,
ou até o olhar que se revê
em doce mascarada), são os grilos
que inventam: a noite um carnaval.
E a quinta-feira de mil cinzas:
nada.

Ana Luísa Amaral