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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um sedativo, uma ambulância, um hospital. E
a memória branca. O céu, o mundo. E noites sobre
noites. E o mar. Escutavas sua voz quando escutavas,
de anjos e de santos, o cantar. Escutavas o rumor
da terra. Rosas, rosas, rosas.


Carlos Matias, Estoril, 2004

domingo, 15 de agosto de 2010

LUSITÂNIA

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

(Nesse verão estivemos todos juntos na praia:
o Manuel Mendes e a Bá, o Chico e a Maria Keil,
o José Bacelar e a Maria Luísa, o José Rocha e a
Selma. E eu mergulhava no mar aos Vivas à República!)

Carcavelos.

«Aqui nesta praia amarela...»
tanto esperei em vão pelo princípio do mundo
com os pés a doerem-me
nas conchas de sangue nu dos tapetes...

Depois despia-me
e desafiava o mar
para sentir na pele
aquele frio antigo tão doce de alfinetes...

José Gomes Ferreira

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

PAISAGENS COM MAR

(k)

À nossa volta, como um labirinto, dispõe-se uma praia
longa O sol desfoca os contornos das coisas do dia, vivas
e vibráteis O mar fotografa a praia de frente
e de cima E as suas fotografias cantam
nas estantes aéreas as vertiginosas figuras
oferecidas ao vento

É uma praia muito antiga: uma praia arcaica
que promete a eternidade aos corpos esplêndidos
uma eternidade compensatória para os corpos
abrasados nos quais obedecendo ao comando da espécie
a juventude ejaculava
e iam morrer dali a pouco

Promessa implacável que expunha à areia e ao sol
os ossos calcinados dos grandes mamíferos pré-históricos
Promessa sarcástica: a eternidade para nós

Nessa praia tínhamos perdido o caminho para o mar.

Manuel Gusmão

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

SOLIDÃO MARINHA

Eu tombei do convés do transatlântico
Em meio às ondas, como num letargo...
Lá se vai o voador -- peixe romântico --
Passam: toninha, méro, anchôva e pargo.

A rolar, tão sòzinho, pelo Atlântico,
Levado, brutalmente para o largo,
Nem da sereia posso ouvir um cântico
Que iluda e enleve o meu destino amargo.

Jangadinha que, ao longe, a vela enfunas,
Enfeitiçada de alegria intensa,
Como um lenço acenando para as dunas...

Dize a todos de terra a minha crença
De lutar, com essas ondas importunas,
E me abismar na solidão imensa...

Rio, 7-11-1945.

Sabino de Campos

domingo, 18 de julho de 2010

CANTO DO MAR E DA TERRA

DE LEOPARDI

Quando o mar adormece e o vento o embala, suave,
Sinto-me percorrer mundos desconhecidos.
Já não me agrada a terra, apenas só a grave
E fluida voz da névoa atrai os meus sentidos.

Mas quando o hercúleo mar ressoa e se recurva,
Em glaucos vagalhões altos e desgrenhados,
Volto os olhos p'rá terra, a que melhor perturba
Meu ser com a magia idílica dos prados.

A terra é bem mais firme, e a floresta espessa
Enche meu coração dum calor inaudito,
Quando o maestro vento, indómito, começa
Sua orquestra, a reger, no palco do Infinito.

Uma árdua tarefa o pescador atura:
A sua casa é um barco, a sua vida é o mar.
Os peixes são p'ra ele uma presa insegura,
E a morte, a velha má, não deixa de o rondar.

Prefiro ouvir o canto errante das nascentes,
Na sombra musical da mata sonorosa,
Quando a martirizada e ruiva luz dos poentes
É a anunciação da noite sigilosa.

Afonso de Castro

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A CASA DA AREIA

Face ao mar, orgulhosa no topo do areal,
só madeira e zinco sobre pilares de cimento
ao sabor dos quatro ventos. O quintal
das traseiras sempre uma festa, frango
no churrasco, alegria nos copos. Depois

a Isila casaria com o Freitas,
a Ermelinda ia ficar para tia
e o Horácio dava em droga.
O Neca, o Tino e o Mando foram
à vida, cada qual para seu lado.

Na velha casa virada à baía,
além do ranger da madeira
batida pelo vento e a areia
apenas ficaram a avó Carminda
e a velha cadela «Deixa-falar».

Rui Knopfli

segunda-feira, 5 de julho de 2010

ZÉ JEITOSO

Quando a noite cai, o Zé Jeitoso começa
uma história simples, uma história qualquer,
com palavras de embalar
para que o mar
adormeça,
-- o mar, diverso como um corpo de mulher.

Zé Jeitoso conta -- e os colegas a ouvi-lo,
sentados no chão, deitados no chão,
pensam que para contar aquilo
Zé Jeitoso traz o mar no coração...

Zé Jeitoso fala de longínquos portos,
de perrices fantásticas do mar,
e julga que os companheiros mortos
passeiam no céu, em noites de luar...

Zé Jeitoso fala... E nas palavras de embalar
os companheiros ficam presos...
O mar adormece... E, por cima do mar,
as estrelas parecem cachimbos acesos...

Sidónio Muralha